O Cerco

A Vaysha carioca

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

Mais um competidor da Mostra Aurora entra em cartaz na Mostra Tiradentes. “O Cerco” de Aurélio Aragão, Gustavo Bragança e Rafael Spínola é uma obra de memórias e correspondências que são compreendidas “por” Brasil através dos anos. Os recortes são dados que se projetam pelo tempo e permanecem no espaço, se tornam o reconforto ou assombração. Os fantasmas do passado surgem de questões distintas, passando pela própria materialização de problemáticas brasileiras. Entre a piscina vazia e o que nos aguarda estando acima de nossas cabeças, o barato se desenrola como um cerco que pressiona a protagonista, Ana. 

Existe uma questão particular de registros que se amontoam e passam a dialogar com um filme quase familiar, com alguns dispositivos e instintos privados. Porém, esses dispositivos não surgem como uma muleta para a construção da obra, esse traçado que se compreende entre duas frentes de tempo distintas, é o que faz a narrativa se movimentar com uma fragmentação que não urge em ser compreendida em totalidade. O título faz sentido à própria forma que o “O Cerco” vai tentando encontrar determinados espaços e ligações, cerceando o eixo narrativo e construindo memória a partir daí. E a montagem consegue esse clima de encontro iminente, mas acaba tornando a experiência pouco convincente de suas próprias temáticas. Esse excesso de fragmentação e recortes, faz com que o espectador passe a buscar algo para se apegar. 

Não à toa, pode ser que o público passe parte da projeção tentando entender onde está situado e o que assiste. Por mais que esse recorte venha a partir da linguagem e com uma intencionalidade clara, acaba inserindo no funcionamento da obra uma necessidade de engajamento que pode não ser correspondida. É fácil perder o foco e criar digressões, mas a própria película dá margem para tal. 

Em meio à catarses memoriais e danças, os fantasmas parecem creditar a si o macabro e gozo com facilidade ímpar. Uma espécie de jogo sem saída onde as cobranças e culpas vêm por um encontro febril da memória com o futuro. Aqui o inócuo ganha força em relações que estão em constante atrito, sem uma construção que ganhe peso dramático. É a ausência que cria isso. 

“O Cerco” concentra esforços para criar uma experiência a partir dos registros, não há um impulso que tente nortear a narrativa para um encaminhamento da plausibilidade. A escolha faz do filme uma experiência mais concisa, com referências que transam com formas da burguesia cinematográfica e nunca se alinham por completo. Aliás, o registro é um entrave da forma, é o primitivo com o mais basilar do cinema. A cena final, acha uma poesia distinta para se encerrar, como meio, entre o passado e o futuro se revisita o vívido em luz, barulho, cantoria. É a festividade de uma história pondo fim à nossa experiência. 

O longa por muitas vezes desinteressa, perde força, volta com um impacto maior. Essa montanha russa fragiliza o processo, não há como negar, e os tons aburguesados de determinados diálogos e bebedeiras parece retratar uma espécie de Santa Tereza menos carnal e mais romantizada. Afinal, é um encontro de duas políticas do corpo, materializada em um trecho da cidade. Talvez “O Cerco” buscasse uma verve que compreendesse esse brio de rua, a partir dessa linguagem próxima ao registro. Acaba falhando em tornar matéria esse espaço de História que se ergue por todos os lados, cercando a protagonista, o espectador e a própria narrativa. A falta de manejo com nortes trabalhados, pode ser comprometedora, mas a produção acha certos platôs de conforto na cinematografia brasileira contemporânea. Por essa razão, os altos e baixos aqui se agravam e acabam desarticulando algumas boas ideias para findar em uma catarse menos propositiva e mais direta. Demora, mas uma hora engrena, e cabe ao espectador seguir Ana e os cacos de memória ou divagar sobre Brasil e representações possíveis diante da tela. 

“Vive morto o corpo que não mulambeia.”

Trailer

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