O Caso Richard Jewell

A Comédia de Erros não têm Vez

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

É provável que boa parte da plateia especializada que se deslocou para a última sessão de domingo no histórico cinema Roxy em Copacabana para assistir “O Caso Richard Jewell” dentro da programação do Festival do Rio 2019 assim o fez com opiniões pré-constituídas sobre a obra. Clint Eastwood é uma estrela do cinema há seis décadas. Há poucos habitantes do planeta que consigam descrever o mundo sem a sua existência sob os holofotes. Uma pessoa que poderá comemorar bodas de prata de um Oscar honorário em 2020, eis que em 1995 já tinha serviços prestados o suficiente para estar inegavelmente nos livros de História de seu ofício. Amar uma obra de Clint é questão de tempo para qualquer cinéfilo, uma vez que ele sempre foi produto da sociedade em que produzia.

No caso de seu novo longa-metragem na função de diretor não é diferente. O cineasta se vale do que o espectador-médio quer consumir sem deixar de pincelar sua autoria quando possível. Isso não necessariamente transforma “O Caso Richard Jewell” em uma obra representativa. Pelo contrário, a experiência de assisti-la traz uma mistura de reverência com insensibilidade. Uma obra que passa diante dos nossos olhos sem grandes provocações, sem deixar de entreter pela trama curiosa e, até certo ponto, envolvente. Quem passa desse estágio sem dúvida caminhava pelos corredores antes da sessão como se portasse sua Magnum 44 e já adentrou a sala de cinema com um cartaz escrito “eu já sabia”.

Para o público que procura o Clint Eastwood de “O Estranho sem Nome” (1973), “Os Imperdoáveis” (1992) e naquele que iniciaria o auge de sua carreira como cineasta, “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “O Caso Richard Jewell” entrega com folga o que a pré-constituição acima mencionada almeja. É até gratificante testemunhar a diversão pouco compreensível da plateia comprando a história do protagonista vivido por Paul Walter Hauser. O cidadão norte-americano e sua atração pela justiça policial e o apreço pelas armas. Uma aula da ética masculina e da busca pelo heroísmo de seu quarteirão. O que torna a obra mais tragável é que o texto do roteirista Billy Ray traz quase a mesma pitada de deboche dos grandes filmes de Joel e Ethan Coen, que de forma muito eficiente construíram um leque de bobalhões em sua obra mais recente, A Batalha de Buster Scruggs” – assim como em boa parte de sua filmografia. Ray encerra seu 2019 como um ano extremamente produtivo, emplacando seu nome não apenas nesse longa-metragem quanto em “Projeto Gemini” e “O Exterminador do Futuro 6: Destino Sombrio“.

É possível definir Richard Jewell como um homem de meia idade que não conseguiu concretizar seus intentos e mesmo assim toma suas decisões na expectativa de que possa alcançá-los. No longínquo ano de 1996 o segurança que tentou ser policial por mais de uma década e se transformou no herói de Atlanta justamente durante os Jogos Olímpicos talvez carregasse uma camada de excentricidade que a sociedade que assiste sua história mais de duas décadas depois tenha dificuldade de captar. A atuação de Paul Walter Hauser, por sinal, acerta na medida ao carregar o peso de uma vida frustrada dividindo espaço com um otimismo incorrigível. O debate da participação da mídia em uma crise como a mostrada no filme nos remete a outra obra que se passa durante as Olimpíadas, no caso a de 1972. Como poucos Steven Spielberg faz de um drama como “Munique” um filme atolado de momentos agudos, optando por congestionar a trama de personagens fundamentais para nosso envolvimento. Já Clint Eastwood toma o caminho contrário e não quer trazer muita coisa além do próprio protagonista.

Dentro de um “teatro da idiotice”, o longa-metragem consegue transitar por representações abomináveis de pessoas preconceituosas e estereótipos questionáveis como o da jornalista que troca informações por sexo. De certa maneira, é a visão do vovô reaça que conseguiu se adaptar ao que minimamente convencionamos como linguagem do absurdo. Aliás, se há algo a se destacar nos últimos filmes do diretor é como ele absorveu uma estética aceitável para a Hollywood atual sem que seus valores fossem deixados de lado. No fundo, Richard Jewell é um herói americano em sua essência porque mesmo diante de uma crise que o transformou em alvo, ele segue confiando nas instituições – quase como se não soubesse viver de outro jeito. Acreditando fazer a coisa certa, ele recebe toda a aprovação de sua mãe. Uma personagem que, mesmo exigindo pouco de Kathy Bates, lhe permite guardar para si as grandes sequências do filme. Se a plateia atual não compra mais o exagero de uma persona como Forrest Gump, essa filme consegue exemplificar como podemos humanizar o protagonista apenas para reforçar o quanto ser subserviente e acreditar no amanhã é o melhor caminho.

Um homem que se encaixa como um molde na população interiorana dos Estados Unidos. Defende a polícia, odeia estudantes e não confia na imprensa. Algumas vezes com razão, outras incapaz de compreender que faz de seus atos um “fogo amigo”. Tudo isso vira poeira quando os momentos finais vira com maestria a chave da comédia de erros de um mundo onde os fracos não têm vez, em um drama edificante, com discursos que inserem pequenas lições de moral no meio de sequências com o tempero que a época de premiações do cinema dos Estados Unidos adora sentir.

A sociedade dos Estados Unidos talvez seja a que mais precise acreditar na Justiça Divina. Avançando pelos séculos na defesa da meritocracia, descarta humanos como o protagonista desse filme sem qualquer dor na consciência. Ainda bem que os grandes vencedores da Corrida do Ouro como Clint Eastwood dividem suas honras de forma generosa para celebrar a mediocridade de seus irmãos menos gloriosos em filmes como “O Caso Richard Jewell“.

 

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