O Bem Virá

O Outro não muda

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

Região do Pajeú pernambucano, nos anos 1980. “O Bem Virá”, de Uilma Queiroz, mostra o subdesenvolvimento e a superexploração do trabalho em uma de suas formas mais profundas. Partindo do resgate de uma fotografia e a necessidade de contar a história dessas mulheres presentes no registro, o documentário vai atrás de cada uma e escuta atentamente à construção histórica da situação e tudo aquilo que apenas uma foto é incapaz de mostrar.

A denúncia do filme vai além das condições de trabalho, pois o foco central nessas mulheres transforma a obra em um grande panorama das repressões da sociedade e do Estado contra o corpo feminino. Os depoimentos são brutais, a superexploração do trabalho das mulheres grávidas, violências sexuais que “hoje são chamados de estupros” (como diz uma personagem), a seca e a fome. É um projeto que expõe o trauma do estômago vazio e como essas personagens eram unidas em um momento de dificuldade extrema. A luta por direitos e dignidade é parte constante dos depoimentos desse retrato rígido de um Brasil que não ficou para trás, mas que segue fora da mídia ou a estrutura dessa repressão tornou-se urbana, diluída no caos da sociedade, igualmente escanteada. “O Bem Virá” acaba tendo um problema de ritmo próximo à metade, pois encerra parte de suas discussões e mantém um ciclo que retorna às histórias e mostra a atual circunstância que elas se encontram, agora na prosa dos traumas. A queda da dinâmica é um fator incontornável e necessário para um documentário que propõe o retrato dessas vidas, dessas mulheres que lutaram, e seguem lutando.

Ao atravessar esse coletivo, nos fixamos às figuras individuais, que contam os bastidores do local de trabalho, a divisão e como funcionava o dia-a-dia na fazenda. Essa aproximação é importante para que não haja apenas o fetiche da exposição de um acontecimento, mas sim o real interesse nas pessoas que o compõem. Dessa forma, Uilma Queiroz deixa claro que o projeto em si não está direcionado à resolução de uma problemática ou o enquadramento objetificador. O que fica claro nos primeiros minutos de projeção, onde revela o que lhe chama atenção na fotografia que abre o filme. Porém, essa queda de ritmo, ainda que compreensível, pode pesar na experiência de alguns espectadores. De toda forma, “O Bem Virá” consegue provocar uma série de discussões, por sua recusa à mera exposição inócua e com isso permeia uma quantidade avassaladora de questões que nos ajudam a compreender o estado de subdesenvolvimento no Brasil e na América Latina. A formação disso está longe de ser o objetivo da obra, e nem tem espaço para tal.

Mesmo que haja um investimento na tentativa de contextualizar o momento que as mulheres lembram, a memória é a maior aliada de um filme que não possui uma grande quantidade de material de arquivo para tentar materializar parte desse espaço. O efeito é a valorização da história através da tradição oral, enriquecendo a projeção, já que o ato de compartilhar suas vidas com a câmera, torna-se mais humano, menos programático. E nesse jogo de não-representação, mas registros, “O Bem Virá” é uma das obras mais honestas exibidas no Olhar de Cinema 2021, capaz de provocar o espectador sem manipular sua perspectiva. É a relação dos trópicos com o público, a maneira como Queiroz conduz os depoimentos e a dor da fome que é um fantasma (ainda) presente na história do país. Outra contribuição generosa da realizadora, é falar do clima e da região, retirando o peso de uma representação da fome que foi naturalizada na sociedade brasileira: o sertão e a seca. Suas breves falam em torno do terreno e das terminologias, desde estiagem à seca em si, elegem um único culpado pela miséria, fome e morte: o Estado.

Na margem da margem, ora-se por farinha e água.

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