O Ano da Morte de Ricardo Reis

Diálogo entre os tempos e farsas

Por Vitor Velloso

Durante o CineOP 2021

O filme de abertura da 16ª CineOP não é um longa brasileiro. Apesar da informação quase sensacionalista, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de João Botelho foi escolhido para abrir a programação do evento por conta da homenagem prestada a Chico Diaz (e por tradição a Mostra exibe um filme com o, ou do, homenageado), protagonista do projeto português. É possível problematizar a escolha, aliás a homenagem à Grace Passô (na 22ª Mostra de Tiradentes) foi formalizada com a projeção de “Vaga Carne”, com a direção da atriz e Ricardo Alves Jr., com a assinatura da própria Universo Produção, mas não acredito que uma crítica direta seria tão honesta, se lembrarmos que há uma pandemia em curso e que o ator homenageado está em terras portuguesas, uma produção nessa direção seria uma logística impensável. 

O filme é baseado no livro homônimo de José Saramago e a narrativa é articulada a partir do real, o ano de 1936, a ascensão do fascismo de Mussolini, Hitler e Salazar, e um campo da imaginação, ou do irreal, onde o diálogo com Fernando Pessoa é materializado após sua morte. “O Ano da Morte de Ricardo Reis” provoca seu protagonista entre o delírio e encantamento, forçando-o a tomar uma posição diante da realidade, nacional e particular. Nesse sentido, é interessante perceber que a abordagem clássica de Botelho reforça uma perspectiva histórica que é traduzida na linguagem, não apenas por um preto e branco que reforça os contrastes, mas por referências mais explícitas ao arcabouço do cinema europeu. Tanto nos planos e contra planos de close nos olhos, para reforçar a dramaticidade de um romance e suas tensões, quanto nos zooms espalhafatosos que revelam uma personagem que entra no cômodo. As possibilidades são muitas, mas não é possível deixar de notar certas grandiosidades formais, que acabam se tornando “reverências” explícitas à alguns mestres do cinema, entre eles Reed. E é a partir desse rigor formal que alguns planos verdadeiramente sublimes encontram projeção.

João Botelho constrói uma profundidade de campo em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que consegue gerar esse aspecto delirante, espectral, de constante suspensão, onde essa materialidade histórica é colocada não apenas como um cenário particular, mas parte desse assombro catalítico, onde o “poetificado” é esse cenário. Um processo de tradução, “transcriação”, que está em constante movimento. Por outro lado, parte dessa estrutura vem de um certo maneirismo europeu, um tanto centrista, que elimina algumas possibilidades de discussão crítica dessa realidade em que o personagem está inserido. Por essa razão, é possível crer que essa adaptação tenha sido feita a partir de uma ideia de debruçar-se diante da obra original, para que parte dessa estética passiva fosse levada à tela do cinema com um determinismo grandioso. O que é uma pena, aliás algumas intervenções mais imediatas feitas por Botelho podem sugerir uma vulgaridade quase surreal, mas geram composições realmente interessantes. A exemplo do travelling no parque, de alguns planos holandeses e da própria despedida inicial de Pessoa, com um aspecto farsante que ganha alguns destaque. 

O eixo que concentra esforços no mergulho direto dessa paisagem histórica, com Ricardo Reis (Chico Diaz) presenciando diretamente eventos históricos e fatos populares em decorrências das atitudes autoritárias de Salazar, em perspectiva com Mussolini e Hitler, possuem uma cadência quase épica em sua dimensão imagética. Com o perdão da comparação, soa como Riefenstahl (sem o louvor) curvando-se diante desse recorte. A segunda metade é uma espécie de cólera virulenta que persegue o personagem até no sossego de seu silêncio, onde o repouso do sofrimento pela própria (auto)descoberta e fuga da realidade, é um carinhoso reencontro, agora sem delírios, com parte de sua própria trajetória, que como a farsa que viveu, repete-se em caráter melancólico e reconfortante. 

“O Ano da Morte de Ricardo Reis” possui tenebrosos paralelos com o mundo contemporâneo e Chico Diaz interpretar essa “chave” de um rosto brasileiro diante do furacão fascista nos remete aos protótipos arquetípicos que hoje a América Latina vive, onde a anterior figura mitológica era Corisco, hoje é apenas um capitão à serviço do imperialismo.

Trailer

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *