Ninguém Sabe Que Estou Aqui

O monumento inaugural, uma ilha.

Por Vitor Velloso

Netflix

Com um breve bafafá por conta do nome de Pablo Larraín na produção, “Ninguém sabe que estou aqui”, de Gaspar Antillo chega a Netflix com o diretor sendo o vencedor do prêmio de “Diretor Revelação” da edição online do Festival de Tribeca.

É de se questionar os concorrentes em questão, pois o filme não consegue fugir da obviedade de uma estrutura narrativa absolutamente marcada. Um desenho de “trauma”, com questões morais implícitas e/ou explícitas (que nunca chegam ao debate) e uma colagem dos post-its do roteiro, ou seja, uma bagunça orquestrada de forma industrial.

Não há nada de novo no projeto, nem mesmo a construção que é feita, muito menos o arquétipo de seu protagonista, Memo, interpretado por Jorge Garcia. Tudo se dá de maneira simplificada, desde de sua apresentação, que nos dá o tom do isolamento, ao “mistério” que se constrói. Esse elemento em específico, o filme acredita estar suspendendo toda uma proposição da ética da indústria musical, quando só reforça a toxicidade da mesma, um debate já realizado em ampla frente no cinema e que aqui encontra a muleta dada em “Singin’ In The Rain” para achatar as possíveis vertentes da história ao famoso “canta que eu dublo”.

É claro que há empatia construída constantemente durante a exibição do filme, mas tudo não passa de uma encenação barata de uma história triste para que haja essa superação, ou uma redenção moral, uma espécie de terapia que se dá de maneira lenta, porém bastante óbvia.

Antillo não é infértil, há boas composições que salientam a explosão por vir, algumas tomadas que seguem seu protagonista na mórbida rotina diária. Mas tudo isso deve ser creditado primordialmente a Jorge Garcia, que consegue conter essa explosão gestual, em pequenas passagens, até que de fato deve recuar para não conceber a violência. Essa cena em específico é bem conduzida pela montagem. Porém, como tudo aqui, os passos estão dados, os lugares marcados, é o cinemão de terceira categoria com a estética de filme da “arthouse comercial”, o que se deve pela fotografia competente, mas que parece buscar atenção para si.

O clímax de “Ninguém sabe que estou aqui” nos faz recorrer imediatamente às azuis das drogarias, já que é impotente e causa bocejo em gafanhoto de café. É uma cena absolutamente inócua, que se constrói através de um lirismo bastante canhestro, resultando em uma longa cena musical que apesar da voz “agradável” do personagem, não encontra seu lugar na montagem, nem na encenação que se perde em recompor esses sonhos do protagonista no palco da vida real, em virtualidade da projeção para TV.

A ficcionalização do ficcional parece cumprir exatamente seu papel industrial, conduzir algum lítio à infertilidade do projeto. E quando é referida desta maneira, como chão de pedra, deve ser compreendida a partir daquilo que o filme é, não do que poderia vir a ser, pois a concepção é boa, mas nunca chega as vias de fato.

Toda uma retórica de insensibilidade pode ser utilizada para defender que há equívocos na leitura acima, mas a verdade é que a produção de Larraín, com direção de Antillo é um projeto mambembe de cinemão. Onde consegue se aproximar de algum grau comercial, parece abraçar todos os clichês e necessidades de reconciliação da tradição, onde tenta se afastar, tentando ser independente desse padrão industrial, patina gravemente e torna a se entregar às convenções. Ora, convenções não são únicas da indústria.

“Ninguém sabe que estou aqui” é aquilo que a Netflix precisava para preencher seu catálogo, um filme fácil, família, capaz de emocionar, mas com pitadas de cinema independente (em uma passada rápida), ou seja, cumpre diversos requisitos para um amplo leque de espectadores. Uma adição pro catálogo bem planejada, que casa bem com o período de quarentena que estamos vivendo, pode acabar chegando à lares que normalmente não chegaria.

Não é exatamente um desastre, mas tá longe de ser algo marcante para o já problemático catálogo da “gigante do streaming”. E como consta o dever do crítico aqui presente em encerrar o texto em palavras praticamente exatas, enrolo mais um tico o leitor e aproveito para fazer uma recomendação: A Filme Filme é uma plataforma de streaming excelente que busca filmes que estão fora do radar das demais empresas, o custo é individual, mas tem umas preciosidades por lá.

Trailer

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