Negro em Mim

A liberdade é uma luta constante

Por Laisa Lima

Durante o Festival Guarnicê de Cinema 2020

“Não aceito mais as coisas que não posso mudar, estou mudando as coisas que posso aceitar”, já dizia Angela Davis. Filósofa e militante, sua luta contra a supremacia branca e a favor da igualdade racial fez da ativista sinônimo de resistência, como mulher e como manifestante. Seus ensinamentos prosseguem sendo firmemente aplicados por aqueles que, assim como Angela, persistem em resistir a um meio no qual resistir é um combate diário proporcionado pelo racismo. Entretanto, representações são produzidas a fim de serem um alento e uma voz para quem por vezes não é escutado, e “Negro em Mim” (2020), de Macca Ramos, é um exemplo de que a arte ouve mais que a própria sociedade.

O documentário “Negro em Mim” começa com uma mulher cheia de frases pintadas em seu rosto, uma mão manchando sua boca de preto e um atabaque ao fundo. A pauta exposta no longa-metragem, então, é metaforicamente representada por esta cena, que revela muito do que vem a seguir. De uma forma antropológica, a obra aborda a conexão entre negritude, arte e o posicionamento dos que a fazem, exibindo assim, diversas vertentes artísticas tais quais o teatro, a escultura e a dança, realçando sempre a importância de cada uma na defesa da equidade perante os privilegiados e os que pouco tem privilégio. O molde em que a película é encaixada reforça a todo tempo estas regalias que atingem uma parte da população, mas excluem a outra.

 O foco escolhido em “Negro em Mim” é percebido na medida em que ramificações de um mesmo objetivo –  o uso do próprio corpo para a transmissão de ideais igualitários – são utilizadas de forma em que a arte esteja sempre entrelaçada às mensagens passadas, dispondo de um mesmo molde durante a obra inteira: demonstração da prática dos artistas, suas visões de mundo, a influência de suas manifestações na comunidade negra, e consequentemente, a resposta social para o resultado dos discursos propagados pelos mesmos. Concebido a partir do ponto de vista de pessoas negras, os argumentos apresentados voltam-se não para uma esfera política (como pode ser esperado por alguns), e sim para a culpabilização do coletivo, excluente de todo e qualquer ato considerado como “não pertencente” a normalidade pelo corpo social. A afronta causada por um negro criando sua arte, não alguma ocupação que a  socidade pré-estabeleceu para este indivíduo, como ações ligadas a marginalidade, são trabalhadas no longa-metragem de uma maneira expositiva, e não no sentido negativo.

Baseado nos relatos de artistas (em toda pluralidade da palavra) negros, suas opiniões não divergem quando o tema analisado é “brasilidade”. No decorrer do documentário, os pareceres que o espectador pode ter sobre esta tese, talvez estejam propensos a uma mudança induzida pela quantidade de informações sobre o papel do negro na construção de tal juízo, que participou desde a eloboração de religião como o candomblé, até sua contribuição musical que auxiliou em uma chamada identidade brasileira. Por meio da obra, as apropriações de brancos em relação a produções desenvolvidas por pessoas negras, como seus estilos musicais, mostram que a carência de reconhecimento por parte do povo branco se transforma em um impulsor da necessidade de uma nova ideia de negritude e da força que ascende na cada vez mais unida população negra, rica culturalmente e obstinada em seus anseios, como a tão desejada posição alcançada pela comunidade: a de pessoas que merecem respeito. 

Enfatizando o local onde é passado majoritariamente o documentário, São Paulo, o vínculo do meio com os afetados pelo próprio, se concretiza na tela por intermédio de uma câmera tremida e quase amadora, e ao mesmo tempo, por uma câmera lenta em enquadramentos que valorizam a cidade, seus ambientes e a arte de cada participante entrevistado na obra, dispondo, inclusive, de animações gráficas étnicas ao invés de estampadas nas roupas dos dançarinos. Macca Ramos mostra-se artisticamente realista ao comandar a direção que a película segue e ao culminar em uma fórmula de entrevista que faz-se unificada a grandiosidade que os feitos artísticos proporcionam não só em seus atuantes, mas em seu redor também. Por isso, é sempre abordada a arte como libertadora e despida de qualquer preconceito ou regulamento, a contemplando como instrumento tanto real quanto narrativo. 

“Negro em Mim” expressa o poder de renovação. Renovação do fôlego animador de uma população criminalizada apenas por sua cor por conta de uma provável renovação de pensamentos discriminatórios, derrubados pela competência que a arte possui em levantar questionamentos e trazer incertezas benéficas, inclusive sobre a moralidade presente no preconceito e seu verdadeiro motivo. A manifestação negra é dada no documentário não como um ataque, mas mais como um discurso pregador contra algo nocivo, mas ainda enraizado na população: o desconhecimento de alguns sobre o que é a história. E se há algo que o enredo da obra ensina, é que a história é feita em cima de fatos, um deles é que a população afrodescendente não obteve facilidade ao percorrer o passar do tempo, afinal a supremacia dos que se autointitulam como superiores, não se desfez e nem se desfarão com rapidez. A arte, contudo, está do lado daqueles que enfrentam o tradicional e o fixado, sendo um artefato poderoso na exposição da condição humana. Por isso, se o coletivo negro conseguiu o status de digno dos mesmos diretos que os demais, a arte o amparará não só para a permanência desta condição, mas também para a proliferação da ideia de que não, não existe silêncio para quem jamais vai se calar. 

Trailer

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