Nebesa

A vontade Dele

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Nebesa” de Srđan Dragojević provavelmente será um divisor de opiniões em Locarno. O filme é uma experiência única que consegue trabalhar a partir de uma trama surreal e propor algumas discussões religiosas, políticas, econômicas e sociais no contexto da região dos Balcãs. A trama é dividida em três partes e cada uma delas caminha para um lado distinto. Uma leitura apressada da narrativa pode gerar algumas deturpações agudas nas interpretações possíveis. As representações são amplas o suficiente para criar um entendimento distinto das mesmas metáforas e símbolos que o longa se utiliza, porém, os elementos explicitamente iconoclastas conseguem gerar algumas situações de humor que desafiam parte das instituições mais conservadoras.

A comédia de “Nebesa” é conscientemente material. Reconhecendo que as imagens não possuem valor cômico em si, o contexto político é o que fomenta algumas risadas sinceras. Aqui, a mais-valia ideológica é uma tônica impermeável. Os padres são ricos, o vizinho ganha a vida na ilegalidade e tem uma Mercedes, a mansão do “homem de Deus” é uma “criação Dele”, “a TV disse isso”,e a propriedade privada é a grande sina da maior parte dos personagens. Não por acaso, na tentativa de provar que o protagonista, Stojan (Goran Navojec) não é um santo, sua esposa Nada (Ksenija Marinković), obriga o homem a pecar incessantemente. Esse jogo de pecados é feito em uma construção bastante direta, tomando para si uma série de dispositivos políticos para articular uma dialética das próprias atitudes. Em um lugar onde a fome impera, ser guloso possui outra conotação, para além do pecado cristão. Invejar a Mercedes do vizinho parece demasiadamente tosco e a propriedade privada é objeto de negociação para mais pecados em série. É engraçado ver que a “corrupção” do protagonista é feita a partir de um estereótipo formalizado pelo Ocidente aliado com as práticas mais recorrentes das instituições conservadoras cristãs.

O mundo caótico do filme, é onde a mais-valia dogmática opera sem nenhum tipo de mediação. E Stojan se torna um objeto de síntese da transição de um passado recente onde este era comunista, para um capitalista católico desinibido que com a auréola na cabeça é capaz de fazer o que bem entende sem consequências. No auge dessa problemática, a imagem dos padres corruptos contrasta com o protagonista portando uma AK-47 e acordando a filha. Mas apesar do primeiro terço ser absolutamente hilário, o salto para a segunda história surge com a leitura em voz alta da palavra “democracia” (com as cores norte-americanas) no caixa de um produto. O conteúdo é explícito, o dogmatismo autocrático caminha junto ao imperialismo e a idealização da concentração de poder aumenta a disparidade das classes sociais. E nesse sentido, o filme ao avançar nos anos consegue dar uma dimensão ainda maior desse “novo mundo”.

Próximo à metade, a tônica muda drasticamente e os elementos cômicos são mais espaçados, a representação da fé aparece na intervenção da comunicação, no aparelho celular e na crença que o toque do telefone é uma chamada direta da “Virgem Maria”. Nesse segmento, “Nebesa” oferece uma gama maior de elementos religiosos para compor a narrativa política, mas ainda investe na relação a partir de bases materiais. O contador é o diabo e agentes carcerários agradecem a Deus pelo atentado do 11 de Setembro (acreditando que foi a Rússia). Mas Dragojević não conduz o filme apenas no imediatismo simbólico, a forma procura um dinamismo nas tramas paralelas, formalizando uma paródia que assume o canhestro. O facilitador dramático é o tom divino das resoluções, sem grandes explicações “milagres acontecem”, um deles é reviver a bateria do celular, convencimento máximo que ele é um enviado de Deus.

Quanto mais próximo ao fim do filme, mais a fome se torna elemento fundamental na compreensão da proposta da obra. A arte é aquilo que o Estado autocrático cristão procura nas relações com a burguesia nacional e a própria linguagem do longa se ocidentaliza, explicitando os espaços “clean” como o palco do capital estrangeiro e da corrupção. Por mais que diversos trechos de “Nebesa” fomentem divagações em torno das metáforas, é uma obra que está mais interessada no impacto imediato das cenas e no significado para o todo. As denúncias em torno da alienação chegam a tal ponto que a arte se torna “fast food” das massas e a propriedade privada e intelectual se confunde no próprio desejo das classes dominantes. Semelhanças são meras formalidades.

Trailer

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