Narciso em Férias

Gordurinha demais na carne

Por Fabricio Duque

Globoplay

“Narciso em Férias” é um filme difícil. Por muitos motivos que serão abordados nesta crítica. O documentário, que foi liberado aqui ao público pelo streaming da Globoplay, praticamente simultâneo, no mesmo horário da exibição no Festival de Veneza (ainda que a primeira tenha ocorrido no dia 06/09, projeção especial das 22:15), é dirigido pelos jornalistas-cineastas Renato Terra (de “Uma Noite em 67“) e Ricardo Calil (de “Cine Marrocos” e coautor e codiretor de “Uma Noite em 67”). A sessão europeia de estreia ao público, que só aconteceu no dia 08/09 às 09:15 manhã, foi conjugada com o novo filme de Alice Rohrwacher, o curta-metragem “Homilia Camponesa”. Assim, nós brasileiros podemos dizer que assistimos ao filme antes de Veneza.

Mas por que então que “Narciso em Férias” é uma obra difícil? Uma de suas questões focais é seu tema. Um drama, intimista e extremamente detalhista, contado pelas memórias do cantor-compositor Caetano Veloso. Em uma narrativa clássica, de cenário rochoso (apenas uma cadeira envolta na  dimensão de uma arquitetura de concreto), muito para recriar ao espectador a sensação de cela, de prisão, de sufocamento e de um interrogatório. E também, ao mesmo tempo, tentar quebrar a quarta parede com a evocação de um teatro filmado, em que a câmera aproxima e afasta, coletando fabulações do real que ajudarão na montagem, realizada por Jordana Berg e Henrique Alqualo. O músico narra suas lembranças traumáticas, e, nós, nunca saberemos o que é fantasia e verdade absoluta, até porque nenhuma memória é completamente confiável. E um documentário sabe disso muito bem. E mesmo assim aceita os termos de sua condução, principalmente pela presença da “assinatura” conhecida e já cúmplice de Caetano Veloso.

Outra questão fundamental das dificuldades de “Narciso em Férias” é sobre o porquê de Caetano ter trazido toda a história à tona somente agora e do porquê de ter que compartilhar que foi uma das vítimas do golpe. Será por causa dos documentos descobertos? Será que neste exato momento o mundo fica mais seguro a ele para relevar tais “torturas psicológicas”, como assistir a um jantar de um general? As possíveis respostas só estimulam mais porquês e mais questionamentos. Fica mais difícil à medida que avançamos no seu relato pessoal de prisão durante a ditadura militar, quatorze dias (em 27 de dezembro de 1968) após a “implementação” do AI-5 em 13 de dezembro de 1968. E, sim, em hipótese alguma podemos mensurar e medir o sofrimento sentido, ainda que não não tenha havido violência física e que a “gordurinha do meio da carne” fez com que não se conseguisse comer.

Com produção de Paula Lavigne, companheira presente e assessora do protagonista referenciado aqui, “Narciso em Férias” também provoca outra dificuldade: a de não haver provocação alguma por parte de seus diretores. A entrevista foi conduzida, por oitenta e três minutos, como um monólogo de Caetano, que conta, canta, se emociona, lembra, polemiza com predileção ao sistema neoliberalista (“só acredito nos princípios liberais”), e é deixado livre, mesmo quando percebemos explicitamente que toda entrevista é pautada e previamente ensaiada.

O documentário, jornalístico, intercalado com apresentações musicais acústicas, é um passeio sensorial pela memória do baiano “Tropicália”, que, entre “capacidade de organizar as superstições na mente”, “falso Antonio Calado”, “O Estrangeiro”, “O Bebê de Rosemary” (“Ler era uma espécie de salvação”) e músicas “Súplica”, “Aço Preto” e “Onde o céu azul é mais azul”, fornece uma trágica curiosidade da vida deste compositor adorado por Pedro Almodóvar, que também exibe em Veneza o novo filme. Inevitavelmente, o público traz à mente o docudrama “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira, em que a tortura durou bem mais tempo que os 54 dias no total daqui, incluindo uma semana na solitária (com direito a livros e banhos de sol). A outra dificuldade maior é esta própria crítica, porque o que se conta soa ingênuo demais, quase complacente pelos “guardinhas”, visto que logo de imediato, Caetano e Gilberto Gil não representam perigo nenhum à nação brasileira. Eles seguiram o protocolo. Aceitaram o sistema e sobreviveram. E seguem vivendo, ainda que com o agravante psicológico do não conseguir dormir). Os shows acontecem constantemente e muitos deles com ingressos caros, quase elitistas. Uma pergunta pode vir: e se não fosse Caetano Veloso e sim um anônimo, a história funcionaria? Alguns podem já estar pensando: ele (o crítico) não pode falar isso. Sim, (o crítico) pode. Por que não confrontar o sentido-objetivo para descobrir a verdade real que está lá fora? “Quando a gente é preso é preso para sempre, disse Rogério Duarte”.

“Narciso em Férias”, burocrático, protocolar, orgânico e endógeno, é também uma metáfora. A do “não espelho”. Da não reflexão de nossos rostos e de nós mesmos. O título pode soar uma alfinetada? Sim. Para todos os lados. Se narciso era egoísta e só se importava com a própria beleza, então como fazer que o outro ganhe atenção? E se esse Narciso está em férias, então este período de descanso desencadeia uma mudança no comportamento para o mais humano e solidário? Caetano assim “dosa para não entrar em perigo” e “dança conforme a música” para não ter enfrentar novamente o “medo de barata” e se protegendo na “imaginação fértil vinda da música e a emoção”. Caetano procurou “defender-se” a todo custo, “sem se por em risco” (ainda que diga que “No lugar da mais valia, a mais repressão”). “Só queria que acabasse para eu voltar ao normal”, finaliza com a canção “Terra”. Concluindo, um filme “London London” que mora demais na filosofia.


O cartaz do documentário é assinado pela designer Claudia Warrak. A imagem de Caetano preso também ilustrará a capa do livro “Narciso em Férias”, que a Companhia das Letras lança este mês. Originalmente, esse era também o título dado por Caetano ao capítulo sobre a prisão em seu livro “Verdade Tropical”. Agora, o capítulo será publicado como um livro à parte em “Narciso em Férias”, acrescido de uma seleção dos documentos da ditadura militar sobre Caetano, descobertos pelo pesquisador Lucas Pedretti. O título do documentário e do livro foi tirado por Caetano Veloso do romance “Este Lado do Paraíso”, do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald. Ele se refere ao fato de Caetano ter passado quase dois meses sem se olhar no espelho.

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