Não Vamos Pagar Nada

Do mercado às telas

Por Laisa Lima

Em “Minha Mãe é Uma Peça: O Filme” (2013), de André Pellenz, Samantha Schmütz apareceu na forma da empregada Valdéia; em “Tô Ryca” (2016), de Pedro Antônio, a atriz encontrava-se na pele de uma frentista, que se transforma em milionária da noite para o dia; em “Não Vamos Pagar Nada” (2019), de João Fonseca, a artista desempenha mais uma vez o papel caricato de mulher da classe média enfrentando adversidades vinculadas a sua camada social. Entretanto, o que há mais para ser mostrado além das incontáveis representações a partir da concepção de pessoas desprovidas de uma considerada boa condição financeira?

“Não Vamos Pagar Nada” parte de uma premissa já estabelecida em suas primeiras cenas; após o aumento no preço dos alimentos em um pequeno mercado, Antônia (Samantha Schmütz) começa, não intencionalmente e depois de reivindicar tal atitude dos donos do lugar, uma revolução entre os consumidores do referido estabelecimento, resultando no saque realizado pelos mesmos compradores e na consequente caça dos policiais atrás dos autores dos roubos. Posteriormente e tendo o ocorrido descrito acima como base, o filme é repartido em fragmentados acontecimentos sequenciais, destacando-se a saga vivida por Antônia e Margarida (Flávia Reis), na qual a dupla necessita esconder a comida furtada, de seus maridos.

A essência do filme de Fonseca torna Antônia um tipo de personificação dos questionamentos refletidos pela classe média, como a razão do aumento no custo de itens que, em tese, deveriam ser populares, fazendo a personagem alcançar o posto de “heroína” em seus momentos iniciais no filme, o que logo se modifica para um estado de fugitiva, fato que concentra, ao se desmembrar, o possível maior motivo de riso incluso na obra. A sucessão de eventos, aliás, é construída de modo com que a imprevisibilidade esteja sempre presente, mas é pouco provável que o público seja pego de surpresa pelas artimanhas do longa-metragem.

Uma destas artimanhas está na tentativa de auxiliar a criação de um ambiente cômico por meio do acompanhamento da trilha sonora, que entona um caráter típico de filmes “comédia pastelão”, remetendo até a “Os Trapalhões” (1966), série exibida pela Rede Globo, dando um toque do mesmo subgênero mencionado, aos arcos dramáticos. Incluindo um segmento especial para os esposos de Margarida, Luís (Leandro Soares) e de Antônia, João (Edmilson Filho), a película falha ao expor momentos até promissores (tal qual a confusão na maneira de esconder os alimentos iniciada pelas personagens de Schmütz e Flávia), mas executados preguiçosamente, sendo isso demonstrado mediante os diálogos pouco trabalhados, visto as falas expositivas que quase dão explicações ao público sobre a conjuntura ali proposta. Realizados apenas para a conclusão do objetivo de “Não Vamos Pagar Nada” fazer rir e sem a pretensão de trazer ao espectador uma mínima reflexão em relação ao que está sendo passado na tela, cada palavra dita pelos personagens pode criar um sentimento de não entrada total no filme, já que a aparência de tais palavras e a forma com que são emanadas, geram uma sensação de fingimento para as conversações, impedindo, então, a atmosfera imersiva na obra.

Apesar de ter uma aparentemente admitida condição irreal por conta de seu desenvolvimento contendo tantas causalidades, quando “Não Vamos Pagar Nada” as destrincha, o modo em que são contadas as aventuras de, principalmente, Antônia e Margarida, repete o tema principal – citado abaixo – à exaustão. Logo, o enredo manifesta-se com uma aparência não tão bem confeccionada e algumas vezes dando voltas entorno do mesmo conteúdo, com a finalidade da obra caindo no óbvio, uma vez que as cenas agregam o mesmo preceito, usando quase sempre a firmação das mentiras dos personagens e a decorrente decadência de tais atos, fórmula empregada durante todo o longa-metragem. A necessidade da feitura do assalto também é aproveitada sistematicamente, ressaltando partes no filme com o intuito de passar mais credibilidade na ideia de carência alimentícia e injustiça sentida pelas pessoas inseridas no contexto (o tal tema central) exposto, exemplificado na ingestão de comida para cães, por João.

A realidade, no entanto, pode ser observada em detalhes como as moradias dos personagens, concebidas de maneira a causar em uma parte do público, um tipo de reconhecimento partido da assimilação com casas usuais encontradas em qualquer lugar, reparando em seus objetos componentes, estilos de construção, decoração simples etc. Outro instrumento do real é Samantha Schmütz, que leva até sua caracterização uma fidelidade ao espírito de uma mulher revoltada com o cenário em que está incorporada, se empenhando para mudar tal estado, mesmo que por meios errôneos. Seu carisma sobressai mas não é suficiente para a completa harmonia do filme, apresentando nos demais participantes (interpretados com comprometimento, pelo menos) um padrão básico para o funcionamento e seguimento de “Não Vamos Pagar Nada”, como o policial interpretado por Fernando Caruso, apenas existente para um receio de uma considerável detenção de Margarida e Antônia. A direção de João Fonseca reforça essa desejada sensação por intermédio de um trabalho simplório, focando no decorrer das eventualidades, e intencionado a remeter o espectador ao máximo no crer de uma normalidade vivida pelos personagens, semelhante ao que poderia ser encontrado na vida real em si, percebendo-se tal vontade desde a ausência de um trabalho mais reparável na fotografia (que não possui nem ângulos fora do comum nem um visível tratamento nas imagens), até na cenografia corriqueira.

“Não Vamos Pagar Nada” mira em uma crítica social pertinente: a omissão e a indiferença dos julgados “acima” dos demais devido a suas posses – que, na verdade, não possuem valor nenhum – relacionado ao descaso perante um povo que persiste em subsistir. A ideia válida, porém, toma outros rumos logo após a escolha das situações que iriam sustentar essa premissa, que por conta do prosseguimento dos ocorridos esmiuçados com pouca aplicação, dão enfoque no desenrolar de elementos já esperados e no ritmo de uma mesma norma, causando, assim, um compreensível pensamento de monotonia diante do envolver de uma única questão que ronda toda a motivação dos personagens: a justificativa dos mesmos terem sido presos, dado seus roubos de itens básicos para sobrevivência, como a comida. Entretanto, sendo um filme de comédia, a maior dose de risos pode ser aliada à protagonista, Samantha Schmütz, que conduz uma originalidade dentro de sua personagem, podendo ser a razão de alguns espectadores categorizarem o filme do estilo “gente como a gente”. Agora, ter todo um conteúdo fundamental para fazer rir com base em nossa própria realidade, é sem dúvida, muito mais difícil.

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