Na Prisão Evin

Retratos imediatos de classes

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de SP 2021

“Na Prisão Evin” é um filme curioso em sua linguagem, estranho na estrutura, mas que perde muito fôlego com sua progressão. O longa de Mehdi Torab-Beig e Mohammed Torab-Beig é um dos projetos mais peculiares exibidos na presente edição da Mostra de SP. A narrativa se desenvolve sem digressões, em um sentido tão direto e imediato que a perspectiva formal gera um estranhamento elíptico. Em primeira pessoa, vemos uma série de ilegalidades que envolvem as elites de Teerã e do país, a objetificação, os desejos obscuros e a motivação turva. A maneira como as coisas acontecem aqui, não reverberam para além da ação em si, é como se aqueles fragmentos fossem o suficiente para compor o drama da personagem.

Mas essa relação não funciona tão bem e o filme não consegue se recuperar do constante desgaste de uma projeção que provoca inúmeras vezes, sem debater ou denunciar além da moralidade. O maior problema de “Na Prisão Evin” é que a proposta não se sustenta pelo curto tempo de uma hora e dezoito, perdendo tanto fôlego que se arrasta ao ponto do desinteressante. Justamente o que era o trunfo inicial: essa desarticulação formal clássica para uma perspectiva pessoal, abordando os espaços como a realidade da própria protagonista, abrindo margem para as percepções de cada um dos personagens e encerrando seu objeto imagético em um centro único, vêm a ser a grande derrocada aqui. O paradoxo entre a extrema subjetividade e a impessoalidade, faz com que essas relações não consigam ser desenvolvidas como um drama propriamente dito, dando à arritmia o controle da experiência. Por mais que a ideia seja interessante, o ritmo é prejudicado por essa falta de desenvolvimento dos elementos da narrativa e mesmo que haja um investimento na expressividade das situações, em especial nas interpretações dos personagens, dificilmente o espectador terá uma reação distinta da exposição didática.

É fácil categorizar “Na Prisão Evin” de um maniqueísmo rasteiro por conta dessas posições, mas apesar de haver uma manipulação frágil de como essa proposta se articula diante das relações, a direção procura a provocação no imediatismo e se deixa levar pela frieza de alguns personagens e como os ricaços formam uma seita de retroalimentação de favores. Acaba se tornando uma denúncia da classe tão esvaziada que soa como um fetiche dessa opressão. A situação em que Amen se encontra é de uma brutalidade surreal, sem dúvida, mas não vai além disso, tudo se encerra em cada nova sequência de violências desmedidas. O maior obstáculo dessa experiência é tentar suspender a limitação da imagem e da estrutura, incapaz de racionalizar sobre a denúncia. Assim, a analogia se torna uma escapatória para o ar rarefeito de uma plasticidade subjetiva que objetifica esses encontros como uma espécie de síntese universal. Mesmo que pudesse funcionar como tal, não existe um contexto que forneça algo como base para isso. Quanto mais a direção de arte se esforça na intenção de concretizar uma história que complemente o impacto dos diálogos, menos força o processo todo possui, já que não tem terreno que permite uma fuga desse beco corriqueiro. Dessa forma, a obra cai em um consenso de prosa menos complexa que pretende e se torna uma maneira paralela de debater a realidade.

Quanto mais “Na Prisão Evin” investe em possíveis reflexões entre a luta de classes, apresentando um universo dominante que apenas utiliza parte da sociedade em prol de si mesma, mais se afunda no imediato das sequências e perde qualquer possibilidade de desenvolvimento de cada um dos personagens e situações possivelmente dramáticas que são apresentadas. E é sempre na berlinda de poder apresentar um conflito que não seja rasteiro ou frágil, que o filme sempre parece entregar a sorte a experiências subjetivas dos espectadores.

Trailer

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