Mundo Novo

Desejos são só desejos

Por Ciro Araujo

Durante a Mostra de SP 2021

Existe algo particularmente curioso nessa produção apocalíptica que a pandemia permitiu, um interesse tão estranho em trazer parte a naturalidade de etapas desses “novos tempos” (higiene básica, máscara) para o cinema. “Mundo Novo” é um retrato muito forte dessa percepção. Os closes e planos individuais que querem sugar totalmente a estética isolacionista que se produziu nessa faixa de tempo. Uma hora um close no álcool em gel utilizado para se encontrar com a namorada, outro momento na troca de sapatos. Álvaro Campos, cineasta responsável pela obra, ao menos tem uma vontade peculiar de atrelar esse explícito ao humor de uma determinada classe, tema de debate centralizado do longa-metragem.

Sob a concepção de um roteiro que não coube apenas ao diretor, mas sim aos atores que trabalham num enclausuramento em maioria (também concepção atrelada à pandemia), o filme é um trabalho de empurrar pessoas. No sentido de, conforme seu arco temporal de basicamente um dia inteiro, retirar de cada personagem concebido o guardado dentro deles. É óbvio, é um artifício – que ironicamente é tão natural – utilizado por tantos realizadores em gêneros sociais, para dentro do texto soltar pelo tempo a caracterização dos sujeitos. Apoia-se na concepção do racismo velado, concepção tão boba no Brasil já que ele (o próprio racismo) é explícito, mas que de fato faz sentido impôr num cinema irônico sobre a classe social retratada. Todo o uso de conceitos branco burgueses para implementar dilemas tão presentes na biblioteca cinematográfica brasileira. Afinal, vivemos dentro dessa realidade. E é exatamente o que “Mundo Novo” deseja na sua naturalidade ao procurar ao menos inserir tantos temas já tão passados por essa seleção de tantos filmes sobre.

Mais do que seu próprio interesse num aterramento, numa espontaneidade da atuação e da roteirização, Álvaro decide realizar sua filmagem muito numa conversa sincera entre famílias afim de encontrar medos e realidades dentro dos dois núcleos retratados. A extração disso resulta em nada de novo a ser dito. Muito mais a se interessar está na relação do casal protagonista que reage ambos aos sonhos de cada um. Um (Presto, interpretado por Nino Batista) é mais jovem, irreal, ingênuo, a outra (Conceição, com Tati Vilela a interpretando maravilhosamente) deseja ter futuro e quer realizar os próprios desejos e o que eles significam para si mesma. O Leblon acaba virando um sinônimo de escalada social. E desde quando não é um? Provavelmente como conversa mais franca acabe encontrando em seu final, quando o filme de verdade recebe um fôlego muito mais robusto. As conversas são diretas e convidativas para exporem o tanto que antes houve de sedimentação da relação entre os personagens. A viazinha de regra, sobre mostrar e não falar, aqui perde o sentido quando na verdade a conversa se demonstra muito mais honesta quando simplesmente se falam. Talvez saia daí a sensibilidade maior do filme, inclusive. Até porque esse ato final não depende de diálogos tão perto de jargões ou chavões, como no meio ele apresenta, em uma tentativa de comover em um “Eu te amo” tão bonachão, tão adolescente. É nesse momento que Álvaro Campos chega a provocar inclusive risadas de um diálogo quase incrédulo.

Sua estética burguesa tropical em pleno Vidigal complementa com seu uso do preto e branco. Uma passagem com câmera suave, fechada nos próprios jardins da casa-personagem que é demonstrada. Existe algo de errado também nessa passagem de tempo e espaço dado dentro da propriedade, mas tanto essa provocação quanto a comodidade em um carisma formado na obra não saem de mobilidade. É linear, portanto, a planta baixa de uma protagonista – a casa – que em seu filme funciona por vários andares, vários níveis e espaços, e simplesmente não possua a sensação dessa existência. É sua própria antítese, no final das contas.

Talvez leve o romance político (e pode cunhar esse gênero assim?) tão a sério que exista um “quê”, nessa necessidade desenfreada de se comparar com outras obras, em “Compasso de Espera”, de Antunes Filho. Claro, “Mundo Novo” não é uma obra tão politicamente enxuta, tão preparada a conversar mais sobre si, ela se rende mais à própria realidade sistemática, térrea, ali estão e sobre o presente falarão. Talvez inclusive seu chamado “quê” também seja apelando ao lado do americano Jordan Peele e um suspense social que andam por aí chamando. É aquela historinha, conhecer a família de seu companheiro nunca mais foi a mesma coisa.

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