Movimentos do Invisível

Os Movimentos Naturais de Angel Vianna

Por Roberta Mathias

Durante o Festival do Rio 2019

A frase que dá título ao texto “Hoje eu Desenho o Cheiro das Árvores” é de Manoel de Barros. O poeta cuiabense sempre apostou na natureza para tentar explicar o inexplicável. Quis ser árvore, pássaro e ar. Por isso, quando vi a cena na qual Angel Vianna chacoalha o galho de uma árvore de tangerina e pede para a equipe – e, consequentemente, os espectadores – prestar atenção à dança das árvores, foi de seus poemas que me recordei. A dançarina, assim como o poeta, entenderam que a natureza possui movimentos, cheiros, cores e sentimentos. A relação dos dois com as coisas que os cercam lembra a de uma criança, admirada com todas as possibilidades que o mundo, ainda virgem de olhar, a apresenta.

“Movimentos do Invisível”, documentário apresentado na Mostra Itinerários Únicos do Festival do Rio 2019 investiga a trajetória de Angel Vianna, dançarina e educadora que, após passar pela arte da música e pela Escola de Belas Artes, encontrou na dança uma de suas missões. Angel é pioneira em uma dança inclusiva que aceita as diferenças dos corpos e se interessa mais pelo que eles podem fazer do que pelo que não podem. Na abertura da sessão especial do Festival no MAM cheio de alunos, ex-alunos e sempre alunos, Angel Vianna sentenciou: “O corpo é o ser-humano seu. Você é único e especial.” Talvez por essa propensão em ver o belo em cada parte do mundo, Vianna tenha atraído para perto de si uma série de estudantes que entendem que as aulas da coreógrafa são mais do que aulas de dança.

A sala lotada e os aplausos desde o início até os créditos finais ressaltam a necessidade de uma figura como Angel Vianna para a dança nacional. Seus alunos certamente continuarão a apresentar seus ensinamentos. A própria diretora, Flavia Guayer – que conta com a co-direção de Leticia Monte – é ex-aluna da biografada. Ao mostrar trechos das aulas, mas também a relação corporal que ela tem com a natureza, o longa-metragem faz jus à sua obra.

Existem duas maneiras de ver “Movimentos do Invisível“, assim como existem duas maneiras de encarar o mundo. Podemos focar nos erros, nas limitações ou nos encantar com o belo que cada criatura apresenta. O que não significa que Vianna não procure extrair de seus alunos o máximo que eles possam dar. Ela apenas entende que cada corpo é um corpo.

Testar, ensaiar, acertar. Para além de sua relação com Klaus Vianna, dançarino com quem começou a criar um método de ensino em Belo Horizonte e de quem se separou na década de 1980, Angel nunca desistiu de testar os movimentos de seu corpo. Ao inaugurar uma nova escola nos anos 1990, ela buscava “ajudar através da dança”.  Isso explica porque seus alunos são entusiasmados pela dança, mas também pela figura de sua mestra.

Quando Angel fala das dobradiças do corpo, me lembro também do filósofo Gilles Deleuze. O filósofo utiliza o conceito para investigar o tempo, mas não me parece tão distante do método de ensino que a dançarina propõe. Investigar as dobras do corpo é também investigar nosso próprio tempo. Entender que ele se replica em outras dimensões, outros espaços. Há no corpo muito mais do que podemos ver na correria das grandes cidades. Angel convoca um outro olhar. Um olhar mais voltado para reverberações e passos lentos. “O que seu corpo está falando com você?”, diz a dançarina.

O poema citado por ela não é de Manoel Barros, autor que trouxe para dialogar com sua obra, mas de Caio Fernando Abreu, outro poeta sensível e voltado para as coisas pequeninas do mundo. Abreu, citado do Angel, lembra a importância de “ensinar as coisas a dançar”. Essa tensão permanente entre o corpo do dançarino, o corpo do outro e o corpo das coisas parece ser central no método da professora. Angel deixa agir o movimento do agora, mas dentro dele se apresentam tantos outros tempos… Apesar de afirmar que vive o tempo do aqui e agora, ela o vive em sua plenitude.

Não é qualquer pessoa que é capaz de entender o corpo como arquitetura. Não é qualquer pessoa também que compreende que a natureza  tem seu movimento. Em “Movimentos do Invisível“, assim como em toda a sua trajetória, Angel celebra o corpo. Os alunos celebram a existência de Angel.

“Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.” – Manoel de Barros

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