O Primeiro Dia da 22a Mostra de Tiradentres

Por Vitor Velloso


O primeiro dia de Mostras e Festivais são as boas vindas da maratona cinematográfica que virá. Se resumindo a noite de abertura, um evento recheado de performances, discursos acalorados e debates acerca da situação política da sétima arte e do Brasil.

Como de costumes agradecimentos aos patrocinadores são feitos e homenagens aos seus representantes são prestadas, porém, uma questão roubou a noite. No momento em que o vice-governador de Minas subiu ao palco, o público claramente mudou sua postura. De aplausos aos outros presentes, uma sucessão de vaias se iniciou. O Cine-Tenda escutou o discurso do político acerca da importância da cultura e da arte à sociedade brasileira. O público não aplaudiu a atitude. O histórico do atual governo mineiro, contradiz toda a burocracia fashionista apresentada na noite. E vaias e gritos de resistência artística ecoaram por Tiradentes. A atitude é uma clara resposta a diversas mudanças no cenário cultural nacional, que impactam não apenas o cinema, mas também as estruturas sociais e midiáticas do país. O representante no caso era de Minas, mas a manifestação teve um cunho mais nacionalista que local. Infelizmente, os investimentos no setor de produção artística vêm sofrendo uma forte repressão por parte das medidas públicas, sempre sob a alegação das altas dívidas do governo. Não é bem assim que os profissionais enxergam.

E não há como negar que se tratando de cinema e corpos adiante, o debate político se faz presente. Independente de ideologias e crenças, Tiradentes tornou-se um início de resistência ao moralismo demagogo e às tentativas de frear a expressão artística. Dentro do debate, as performances apresentadas possuíam uma carga de representatividade fortíssima. Não apenas para fazer jus à homenageada, Grace Passô, mas também por ser uma pauta necessária em tempos turbulentos como este. Em uma construção lógica, as sequências montadas falavam do atual governo nacional, do racismo e da Mulher. Vezes viscerais, vezes incomodas, todas as apresentações trataram da temática deste ano. Todos os discursos atingiram, de certa maneira, seu objetivo de ser didático, aos que se fazem de ignorantes, mas também agressivos aos que mantém a postura odiosa. Com direito a construções acerca do livro renegado da democracia latina, a Constituição, o espetáculo se iniciou em tom de revolta, sempre direcionado ao peito de algum assunto específico, ou pessoa.

A homenagem a Grace Passô foi de uma importância estrondosa. A artista manteve a postura ao falar sobre a importância da Mostra, sua emoção ao ser homenageada em algo que lhe é tão importante e sobre a sua relevância como mulher negra no lugar onde se encontra atualmente. Sentindo-se saciada por compreender sua influência em tantas pessoas na plateia. Após a apresentação do longa dirigido por ela e Ricardo Alves Jr., “Vaga Carne”, produzido pela Universo Produção, logo, pelo próprio festival de certa maneira, a exibição foi uma questão política à parte. Polarizando parte das opiniões, algo não dá para negar, à visceralidade no texto e na formalidade imposta. Ao fim da projeção, ocorreu a festa de abertura e todos os artistas envolvidos, de alguma maneira, nos filmes da Mostra estavam presentes.

A 22ª Mostra de Tiradentes continua e vai até o dia 26, com cobertura diária pelo Vertentes do Cinema. A programação é gratuita e conta com debates, performances e shows.

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