O Segundo Dia

Por Vitor Velloso


O segundo dia da 22ª Mostra de Tiradentes se iniciou com um debate direto com a curadoria acerca da temática deste ano, “Corpos Adiante”, assim como todo o debate que a mesma pode levantar sobre o cinema, a arte e seu papel político. Cleber Eduardo, coordenador curatorial, iniciou sua fala dizendo que existem três motivos específicos que o levaram ao assunto. Gestação, parto e eleição. Os dois primeiros de caráter exclusivamente pessoal, ainda que universal em seu âmbito sensível, e o terceiro, claramente político. Recentemente pai, Cleber conta que ver sua companheira entrar em todos os processos até o momento do parto, tocou-lhe na questão física do ato, um corpo que é gerado a partir de outro, uma interessante parábola sobre o processo criativo e fazer artístico. E o terceiro, as eleições, não apenas o resultado, mas também toda a comoção social que é gerada a partir das campanhas e dos discursos. Enquanto os corpos são oprimidos pela política do ódio, a geração artística se projeta mutilando a imagem e criando o visceral a partir da pele.

Logo em sequência Victor Guimarães iniciou sua fala acerca do imediatismo da luta política e como essa luta se dá na tela. Um dos comentários que permeou todos os campos foi a mudança de perspectiva por parte dos curados quanto às obras inscritas e selecionadas, tendo em mente que se em 2018 havia uma postura brevemente mais melancólica sobre a realidade, esse ano há uma virada na atmosfera, tornando a imagem mais agressiva, indo direto ao ataque. Outra mudança notória foi a estrutura dramática que se mantinha com um eixo básico de um personagem apenas, tornando a luta mais solitária e com um tom de derrota muito grande, enquanto em 2019 a proposta tornou-se coletiva, não existe um teor individual quanto a luta política e artística. Tal análise foi feita pela Camila Vieira. Além disso, ela diz que uma mudança quanto ao realismo também aconteceu, chegando a uma fuga da realidade de fato, por isso há um processo mais futurista e distópico, com projetos que utilizam dessa proposta com um flerte mais estruturalista com a utopia. Lila construiu um pensamento acerca do erotismo e pornografia no cinema brasileiro contemporâneo, em especial nos curtas.

A fala mais diretiva quanto a temática e o olhar que se deu quanto a curadoria, veio da Tatiana Carvalho. Possivelmente a única fala que de fato se focou no assunto que todos os outros evitaram, a questão social, negritude e da minoria como um todo. Comentou sobre a teoria africana do tempo espiralar e entrou na questão dos espectros, sejam eles estéticos ou sociais. Deu números sobre a quantidade de negros que chegam aos festivais. 806 filmes foram inscritos, apenas 181 são de pessoas negras. E de filmes que recebem apoio da Ancine apenas 2% são de homens negros e um terrível número de 0% representa as mulheres.

O segundo e terceiro debate do dia foram com a Grace Passô, envolvendo seu média “Vaga Carne”. Me focarei no terceiro, pois foi onde surgiram os melhores assuntos. Juliano abre a fala relatando uma questão mais espiritual e relacionando parte da obra com entidades como o exu. Fez o link direto com o movimento e agressividade da misancene. Em seguida Grace comenta sobre como se deu a relação com o diretor Ricardo, falou sobre a experiência do breu, sobre a escuridão que permeia a obra e como ela compõe aspectos psicológicos da temática e dos personagens, e que aposta no pacto direto com o público em experienciar tudo aquilo e embarcar na proposta, porém, possui a consciência que a mesma pode gerar uma perda de público. E que parte do sentimento é criar um mote que irá gerar uma sensibilidade acerca do vazio e da ausência.

Ocorreu a exibição dos curtas durante a tarde e parte da noite, em seguida uma lotada sessão de “Temporada” precedeu a igualmente cheia projeção de “Ilha”. “Empate” foi exibido na Praça. “Elon não acredita na Morte” foi projetado como uma retrospectiva, com a presença do diretor.

A programação da Mostra de Tiradentes segue a todo vapor, continue acompanhando a cobertura diária aqui no Vertentes do Cinema.

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