Os Curtas da Mostra Foca Minas

Por Vitor Velloso


Sendo introduzido na programação com uma função óbvia, representar o Estado onde acontece a Mostra, a série “Foco Minas” é uma oportunidade única de se conhecer o estilo de cinema que está sendo feito aqui. Assim, nesta segunda série foram exibidos apenas três curtas, foram eles: “Russa” de Ricardo Alves Jr.e João Salaviza, “Trabalho” de Desali e “Logo Após” de Ana Carolina Soares. Todos eles com uma temática social bem definida, o que os favorece na proposta da Mostra este ano.


RUSSA
Dirigido por João Salaviza e Ricardo Alves Jr., “Russa” foi um casamento ibero-brasileiro entre estéticas quase antagônicas, que se unificaram afim de falar sobre a desapropriação residencial em Portugal. Regido de maneira decupada e escalonada, o curta realça o enquadramento através das linhas que o compõe. Perfeitamente calculado para extrair da misancene aquilo que é mais primordial na narrativa. Desta maneira são longos planos que irão introduzir os personagens à tela. Mostrando toda a dificuldade da protagonista em manter sua residência, por causa de uma massiva desapropriação que está acontecendo ao redor de seu prédio e no seu próprio. Sendo oprimida socialmente não apenas por estes agentes, mas pela sociedade como um todo, que mantém um preconceito grave contra a personagem ex-presidiária. O trabalho que os diretores realizam aqui é de uma sofisticação concreta, milimetricamente calculado para nos introduzir neste universo sem esperança, onde o fim não é questão de tempo, mas também de lugar.


TRABALHO
Algumas obras não conectam. Simplesmente não flui. Eu disse o mesmo sobre “O Dia Depois” de Hong Sang soo. Adoro o cineasta, mas este longa específico, não me pega. E “Trabalho” de Desali, é um desses casos. Eu compreendo parte do desejo do artista em retratar todos aqueles corpos em movimento, subjugados a algo muito maior que eles e suas composições são potencialmente criativas, mas mesmo com isso a favor, não me atingiu. O primeiro momento possui uma misancene pouco cadenciada, com cortes bruscos e acredito que foi ali que o curta me perdeu. Reconheço diversos méritos de Desali, mas infelizmente não conectou, talvez reassistindo teria uma experiência diferente.


LOGO APÓS
Dirigido por Ana Carolina Soares, diretora do excelente “Estado Itinerante”, “Logo Após” irá buscar tratar da questão do aborto. Ana comentou antes da projeção que acreditava na importância do assunto pelo fato de termos poucas obras que estão debatendo o assunto de maneira direta. A fala é pertinente, assim como a atitude de realizar uma obra assim, porém, a maneira com que se deu o curta é…dúbia. Irei me explicar. Ela desenvolve uma assinatura inicial que prioriza uma dualidade do quadro, sempre em uma questão de enquadramento, misancene e profundidade, o que mantém o formalismo funcionando em um primeiro momento, já que há algum trabalho, de fato, quanto a isso. Porém, se a ideia é criticar parte do moralismo que gira em torno da discussão, não funcionou, pois, ela não desenvolve essa vertente na obra. Cria determinados signos para manter uma progressão e mistério na obra, sendo que tais totens do texto são ancorados em questões pouco claras. Em contrapartida, há excesso de exposição entre outras circunstâncias. Sendo um projeto que acaba perdendo o equilíbrio com o passar do tempo, “Logo Após”, tornou-se uma obra que não pretendia, estar presente no meio-comum pouco criativo.

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