Monos: Entre o Céu e o Inferno

Linguagem em artifícios, conceitos e ações

Por Fabricio Duque

Em espanhol, monos significa macacos (particularmente, aos primatas antropóides, destituídos de cauda e dotados de longos braços, como o chimpanzé. A etimologia de sua palavra vem do grego e tem o sentido de único, uma nono-célula. No figurado, monos traduz-se como deselegante e estúpido. Já no mundo da engenharia, o termo simboliza um só canal analógico, propenso a encontrar mais ruídos e atrasos de sinais. Todas as definições anteriores podem categorizar “Monos: Entre o Céu e o Inferno” (2019), segundo longa-metragem de ficção do realizador Alejandro Landes, brasileiro nascido em São Paulo, mas que foi criado entre o Equador e a Colômbia. O filme venceu melhor filme no Festival de San Sebastián e do Prêmio Especial do Júri World Cinema – Dramatic no Festival de Sundance.

“Monos: Entre o Céu e o Inferno”, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado, desenvolve sua narrativa pelo arthouse, um cinema de arte dotado de razões estéticas, de conteúdo não convencional e simbólico. Mas o estilo popularizou-se entre seus cineastas, que começaram a “conversar” com as características do cinema comercial, mais hollywoodiano. A obra é pensada também a um público específico de festivais. Dessa forma, este resolveu percorrer o caminho dos dois mundos. Com uma fotografia estilizada e sensorial à epifania e ao etéreo, como se embarcasse em uma realista viagem psicodélica, e ocupada numa ruína abandonada no topo de uma montanha, o longa-metragem prefere forma ao conteúdo.

Isso no primeiro momento. Que logo é intercalado com estrutura orgânica do cotidiano de jovens soldados, que fazem parte de um grupo rebelde chamado “A Organização”, entre armas e apelidos de guerra (Rambo, por exemplo). Cada um ali compactua com o estágio em que se encontram, aceitando a violência “cúmplice de aniversário”, os treinamentos, os xingamentos, as ordens para vigiar uma engenharia americana sequestrada e até mesmo as imaturidades da idade. Mas tudo muda com a vaca “recruta”. “Monos: Entre o Céu e o Inferno” também é um filme de inclusão social. Seus personagens fogem de rótulos e padrões ao existirem juntos como não binários, transgêneros e chamar quem ama de “parceiros” e/ou “sócios”, aludindo uma crítica à ideia do casamento-contrato.

Quando se diz que o filme quer abranger os dois mundos é porque sua edição absorve o corte mais rápido com menos momentos contemplativos. Não só por esse detalhe e sim por mudar cenários como universos paralelos e/ou de viagem temporal complementar. Da “calma” à guerra. E depois à perdição total no meio da floresta, por ganância de poder ou ego aprendido. “Monos: Entre o Céu e o Inferno” é acima de tudo um filme de ação com visual artística. Entretenimento com apuro técnico da imagem. A mensagem é clara. Nós espectadores somos levados a questionar sobre os motivos que fizeram esses adolescentes escolher essa vida. Por ideologia de patriotismo patológico? Lavagem cerebral? Psicopatia? Ou apenas por diversão “Nutella” em se aventurar longe dos pais? Não há respostas, tampouco explicações.

Sua narrativa é também de sobrevivência. As cenas prendem a atenção do público e nos perguntamos “Será que ela vai conseguir?”. Mais um indicativo da junção híbrida entre movimento tensionado, engajamento e desempenho, visto que o quesito interpretação é uma maestria à parte, por amalgamar espontaneidade e entrega-método de seus atores, sem excessos, muito pelo econômico. Logicamente, que por se tratar de uma obra arte-comercial, foi preciso incluir uma maior dramaticidade às cenas, como por exemplo o afogamento, a quebra da corrente com a pedra e o olhar final para a câmera (um artifício de quebrar a quarta parede, convidando a audiência para “participar”). Outra percepção é a explicação do que aconteceu com a “Doutora” e o final em aberto.

“Monos: Entre o Céu e o Inferno” ambiciona manter, sem se perder, os lados do balanço. Uma tarefa árdua de orquestrar o filme como um espetáculo de realismo teatral, muito encenado para a câmera, contudo com o desejo máximo de ser inalterado, biológico, visceral e também impulsivo, ingênuo e imaturo. Como foi dito, uma ambição que beira a pretensão. Mas que conseguiu articular pontos conceituais, níveis de ligação, tons pertinentes e contexto publicitário a fim de “segurar as pontas” até o fim. Sim, o longa-metragem foi o candidato da Colômbia ao Oscar 2020 e que por seu diretor Alejandro Landes “é o céu e, ao mesmo tempo, inferno. Monos é um filme de guerra, moderno e influenciado por Nan Goldin e Harmony Korine”, disse a uma entrevista da Revista Dazed. E complementou: “A música, o desenho de som e a mise-en-scène são muito estilizados e falam de artifício. Mas os lugares e rostos parecem muito naturais. As lutas parecem tão reais. Quando eles se misturam, há uma tensão interessante.”.

Trailer

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