Miúda e o Guarda-Chuva

As distintas formas da animação

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2021

“Miúda e o Guarda-Chuva”, de Amadeu Alban, em exibição na Mostrinha da 15ª Edição do CineBH, é uma animação visualmente expressiva. Apesar da narrativa simples e com poucas reviravoltas, parte das sequências exprimem o desejo didático do filme, com canções expositivas bem cadenciadas e uma grande quantidade de reflexos na própria animação. Por exemplo, quando Miúda expressa o crescimento, sua personagem se agiganta diante dos demais, ou mesmo quando uma sequência foge à lógica interna do restante do longa, as coisas se permitem fugir do convencional sem nenhum tipo de culpa envolvida.

Essa proposta gera uma abordagem interessante durante sua projeção, pois não há um rigor que mantém tudo homogêneo, existe uma certa imprevisibilidade das cores, das formas, no desenho em si, que faz a obra ser visualmente instigante e dinâmica, que para as crianças, é um prato cheio. “Miúda e o Guarda-Chuva” possui uma história que não é lá das mais interessantes, ou melhor, seu desenvolvimento não a faz ser tão interessante. Isso porque alguns elementos e personagens, possuem um propósito estranho à unidade, com algumas cenas que não conseguem justificar suas permanências nem mesmo no âmbito visual. Isso acaba gerando alguns espaços durante a projeção, que acabam tumultuando o ritmo geral, mas não chega a comprometer de forma incisiva.

Utilizando dois universos para poder trabalhar sua história, o filme parte do eixo central, Miúda e sua planta carnívora, e as formigas, que procuram um plano para impedir seu fim na boca da cruel planta. De certa forma, os diálogos entre a protagonista e a planta são interessantes, pois mostram a inocência da garota em relação ao discurso ardiloso da faminta planta, que recusa a chamar Miúda por seu nome e apenas cobra da mesma que a alimente, sempre que está a fim. É onde parte da lição moral é desenvolvida, “crescer” e “amadurecer”, implicam responsabilidades e escolhas, que ela só será capaz de fazer quando entender que o adeus é tão necessário quanto o acolhimento. O problema é que essa longa parábola que encontra essa moralidade de maneira mais posta, faz com que “Miúda e o guarda-chuva” não saia do lugar por um longo período, a sensação que fica é que boa parte do projeto não cria novos desdobramentos para a história, apenas alguma situação visualmente impressionante.

Neste caminho, é onde estão os maiores méritos do projeto, pois existe uma espécie de experimentação das formas em alguns momentos, que realmente podem chamar atenção. Contudo, é difícil se manter interessado em uma narrativa que parece saltar de um lado para o outro com um foco bastante indeciso, quando estamos junto às formigas diversas cenas cumprem apenas uma questão cômica, outras exploram as características individuais das duas pequenas “protagonistas”, mas poucas coisas relevantes saem dali. O que parece é que o projeto poderia ser mais enxuto e acaba se estendendo em pontos pouco relevantes, para encontrar um dinamismo mais estimulante. É algo que não se sustenta durante todo o tempo e por isso, pode gerar algum cansaço após suas repetições. Além disso, quanto mais estamos próximos ao fim da projeção, há menos experimentações e mais diretrizes narrativas, como quem “corre atrás do tempo” para fechar algumas pontas.

“Miúda e o Guarda-Chuva”é rico em sua animação e confuso em sua narrativa, acaba caindo em certas armadilhas convencionais que traduzem um certo cosmopolitismo. Em suas viagens no tempo, mostra espartanos e cavaleiros medievais se digladiando, o que desloca essa história para um lugar que desconhecemos. Não se perde por completo nas aventuras, mas acaba deslizando inúmeras vezes a ponto de perder alguns propósitos previamente estabelecidos. Tem méritos explícitos e deve ser lembrado mais por eles do que por eventuais falhas que comprometam a experiência de maneira direita.

Trailer

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