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Ficha Técnica

Direção: Jean-pierre Jeunet
Roteiro: Jean-pierre Jeunet, Guillaume Laurant
Elenco: Dany Boon, André Dussollier, Omar Sy, Dominique Pinon
Fotografia: Tetsuo Nagata
Montagem: Hervé Schneid
Música: Raphaël Beau
País: França
Ano: 2009
Duração: 105 minutos
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM

A opinião

“Mic Macs” apresenta uma crítica à indústria armamentista por meio de uma fábula surrealista. A atmosfera inclui o espectador em um universo lúdico, com fotografia saturada ao contraste alaranjado. Os personagens são tipos caricatos e humanizados com a técnica sistemática da precisão. Cada um deles é essencial e único aos planos mirabolantes, inteligentes, ingênuos e até patéticos que utilizam o acaso e o tempo para que aconteçam. O diretor já nos proporcionou incríveis experiências cinematográficas com “Delicatessen” e “O Fabuloso destino de Amélie Poulan”.

Em seu mais recente longa, conserva a essência de seus trabalhos anteriores. Comporta-se como um teatro circense que dá vida a seres inanimados, os transformando em personagens reais e necessários a fim de se conduzir a própria etapa da trama. A camera não possui limites aos enquadramentos. Passeia-se por rodas, sobe-se, desce-se com a sutileza de um mestre manipulando a imagem. É incrível. Os movimentos personificados mostram um balé cotidiano de reviravoltas fantasiosas, porém extremamente aceitáveis, por serem condizentes e inteiradas no contexto.

Em uma perseguição, atira-se em um motoqueiro, que deixa a sua arma cair, que rodopia no ar e ao tocar o chão, o gatilho acidentalmente dispara, atingindo uma vítima do outro lado da rua (perceba que a trajetória da bala é mostrada com cruel e irônico resultado). A pessoa que levou o tiro na cabeça assistia a um filme antigo, repetindo os diálogos. Percebemos que ele trabalha em uma locadora de vídeos. As soluções das reviravoltas são exageradas e teatrais, propositalmente abordadas pelo roteiro.

Quando se humaniza o personagem, aceita-se o que é e pelo que ele luta (sobrevivendo a sua maneira). Não há julgamento, e sim compreensão. O aprofundamento acontece gradual, sem melodramas maiores. Entretanto, o filme impede que o espectador embarque totalmente. Acha-se engraçado, divertido e fofo, mas falta naturalidade. O excesso da busca do humor segue por um outro caminho: o da repetição gerando o óbvio, logo desencadeia o clichê. Não que se queira isso, mas é esperado quando se bate na mesma tecla. A lógica é simples. A primeira vez é interessante e inovativa. Nas outras seguintes, há a necessidade de prender a atenção de quem está do outro lado da cadeira do cinema com outros elementos.

O músico de rua Basil é um sujeito sem sorte. Ainda criança, teve sua casa no deserto do Marrocos explodida por uma mina, tornando-se órfão e sem-teto. Anos mais tarde, ficaria à beira da morte por conta de uma bala perdida que se alojou em seu crânio. Retornando do hospital após este acidente, é apresentado por um ex-presidiário a um grupo de comerciantes de ferro-velho. São marginalizados que vivem dentro de uma caverna, mas cada um tem alguma habilidade extraordinária. Junto aos seus novos amigos, Basil faz de tudo para destruir a indústria de armamentos que arruinou sua vida.

Entendendo o estilo e o tipo da narrativa, absorvemos os seus personagens em papéis completamente entregues. Não há meio termo para eles. Concluindo, é um filme bom, prejudicado pelo próprio medo do roteiro de não conseguir ser técnico, esquecendo-se por instantes de seu material bruto principal. É inevitável não referenciar aos filmes anteriores do diretor, que mesclava técnica com interpretação na medida certa. Neste, os diálogos continuam sendo ótimos, perspicazes e com uma pureza crua da infância, mas soam comerciais e teatrais demais, deixando no ar um não convencimento. Destaque para o ator Danny Boom e para a atriz principal de “Seraphine”. Recomendo.

O Diretor

Nasceu em 1953 na França. Autodidata, iniciou a carreira realizando curtas-metragens de animação em parceria com o ilustrador Marc Caro e em 1991, co-dirigiu com ele seu primeiro longa-metragem, Delicatessen, que ganhou 5 prêmios César. Concorreu, com Ladrão de Sonhos (1995), à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Entre seus principais filmes, destacam-se ainda Alien: a Ressurreição (1997) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), indicado a 5 Oscars.

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    Sou fã do Jeunet por "Amélie Poulain" e "Delicatessen" e assumo uma queda pelo pretencioso "Eterno Amor". As fábulas em sépia do diretor me encantam, e aqui ele segue construindo uma identidade para seu cinema – ainda que não evolua muito. Gosto do filme, mas, assim como você Fabrício, consigo listar alguns problemas que tiram dele o mérito de um filme grandioso.

    Grande abraço!

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