Meu Amor Por Grace

Do exótico ao erótico

Por Michel Araújo

Por vezes o cinema de gênero tomou a alteridade étnica como mera propulsão dramática e subterfúgio para aparentar se diferenciar da fórmula industrial. Ledo engano de quem morde a isca e crê que tais filmes possuem uma dimensão crítica concreta. Passada a questão da inexistente crítica e do pretexto efetivo de um filme de gênero que é criar uma história de puro entretenimento, em diversos casos parece inexistente o esforço de construir personagens interessantes e profundos, histórias emocionantes, uso criativo da linguagem para ampliar a experiência do espectador. “Meu Amor Por Grace” (2018), de David L. Cunningham, investe no gênero romântico com todo o kitsch dos clichês e dos motivos replicados sem o menor compromisso com a autenticidade ou a emoção.

Da paternalidade de Doc (Matt Dillon, cuja atuação é a única louvável do elenco) por Jo (Ryan Potter) à paixão de Jo por Grace (Olivia Ritchie), o filme não oferece subtexto algum para o caráter de seus personagens. Doc é um homem plenamente bom, e sua introdução na história já o estabelece como superior quando salva Jo de ser espancado por roubar um bolinho de arroz quando estava com fome: um plano ponto-de-vista de Jo, que mostra a figura de Doc vindo de cima para baixo, sublimado, divino. Doc é um homem que não pertence àquela cultura, e por não pertencer à ela, está acima de seus defeitos, seus preconceitos, seus paradigmas.

Grace é uma figura angelical. Criada numa família aburguesada de latifundiários neo-escravocratas, Grace consegue se sobressair a todo o conservadorismo capitalista e ser uma moça de bom coração que vê através dos paradigmas sociais, e se permite apaixonar por Jo. As construções são tão rasas que não passam da mera funcionalidade. O pai adotivo, o menino órfão rejeitado pela sociedade, a moça angelical de família rica por quem o órfão irá nutrir uma paixão aparentemente inconsumável.

Na primeira cena que Jo tem contato com Grace, quando vai atendê-la na ausência de Doc, um tom erótico se instaura. À pedido da família, o rapaz deve cobrir seu rosto para que Grace não o veja, bem como um véu parcialmente transparente é colocado ao redor da cama de Grace para que o rapaz não veja mais do que o necessário – o tornozelo que a moça havia torcido. Grace é apresentada como um fruto proibido: na lógica de uma verdadeira pin-up, a beleza escondida serve tão somente para provocar a imaginação. Se por um lado Grace não pode ser vista por sua beleza, Jo não pode ser visto por sua etnia.

O rapaz é exótico, e portanto, também é tratado como um fruto proibido. Mesmo quando Jo atende Grace na própria presença de Doc, parece que os elementos externos apenas canalizam a tensão sexual. Doc pede que Jo tire a temperatura de Grace, e ele lentamente coloca o longo termômetro na boca da moça. O trabalho gestual acentua o erotismo do ambiente: cada toque, cada tateamento, cada medida em Grace não é apenas médica e profissional, é um pedido de permissão para seu corpo.

O personagem do doutor Reyes (Jim Caviezel) que posteriormente aparece também cumpre um importante papel nesse jogo de exotização erótica. Reyes é o arquétipo do homem branco da cidade. Diferentemente de Doc que dirige uma bicicleta até seus pacientes, e de Jo, que corre à pé para entregar remédios, Reyes dirige um carro. Seu Ford vermelho, cheio de iguarias médicas e bebidas alcóolicas é todo o kitsch que o filme assume criticando, incorpora negando. Reyes não esconde suas intenções para com Grace, mas flerta abertamente com a moça, quebrando o então estabelecido código do romantismo velado.

Reyes é alcoólatra e um mau médico, o filme faz questão de moralizar e sublimar todos os bons personagens e tornar absolutamente condenáveis os maus personagens. O título original da obra é “Running for Grace”, que traduzido literalmente poderia ser “Correndo por Grace”. “Grace”, entretanto, pode por sua vez ser traduzido literalmente como “graça”, no sentido teológico. E do que se trata “Meu Amor por Grace” senão de uma história de buscas por milagres? Os quais o filme deliberadamente chama de milagre, como por exemplo quando Doc consegue a guarda judicial de Jo, tornando-o legalmente apto a se casar com Grace. O filme é frontal e mesmo vulgar na sua incorporação de uma narratologia de conto de fadas. Faltam adjetivos para delinear os exageros cafonas dessa obra.

 

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