Mektoub My Love : Intermezzo

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O existencialismo pelo bate bunda

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Livremente inspirado na obra literária “La Bressure La Vraie”, escrito por François Bégaudeau (com estrutura formal de “Tales of the City”, do americano Armistead Maupin), o novo filme do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche (diretor de “Azul é a Cor Mais Quente”) integra a mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2019.

“Mektoub My Love: Intermezzo” é a segunda parte de uma trilogia iniciada com “Mektoub My Love: Canto Uno”, exibido no Festival de Veneza do ano passado. Se no primeiro filme, a história-saga apresenta seus personagens e seus dramas intimistas, o de agora é um intervalo à diversão, e corrobora exponencialmente a característica principal de seu diretor: a naturalização da espontaneidade. Nós espectadores somos convidados a participar de um tempo real das micro-ações expressivas, mitigando todo e qualquer resquício e vestígio de encenação aparente.

É uma tradução literal da própria vida. De todas as engrenagens e emoções compartilhadas. O longa-metragem é uma versão cultural do universo árabe-tunisiano, explicitado na parte um. Sim, é um canto. Uma crônica realista de personagens que apenas vivem suas vidas, permitindo que o público possa observar, incluindo uma cena de sexo explícito que fez com que as pessoas (chocadas) abandonassem a sessão aqui em Cannes. Seu diretor anunciou horas antes da primeira exibição (que desta vez aconteceu junto à gala com o público convidado não imprensa) que cortaria meia hora das quatro horas oficialmente divulgadas.

“Mektoub My Love: Intermezzo” é um filme de contemplação de existências em movimento, dividido em três cenários: a praia, a danceteria (e o banheiro) e um quarto (a última e curta cena). Kechiche ao prolongar a percepção faz com que sejamos imersos completamente no desenvolvimento cadenciado da trama, e assim quatro horas de duração são poucas a toda essa experiência que vivenciamos. Suspende-se o tempo para potencializar a sinestesia de um mundo particular, com sua câmera próxima, quase em super close, de instantes fragmentados e de elipses unidas.

Ambienta-se a história no ano de 1994 e, neste em questão aqui, a citação bíblica do primeiro crédito de abertura não é mais sobre a luz, e sim Jeremias (profeta que avisou sobre a destruição iminente de Judá), conjugado com seu título Mektoub, que na tradução é uma interjeição que expressa uma impressão repentina ou um sentimento profundo, como admiração, surpresa, desconforto, e ou para atrair o espectador à conformidade. “Eles têm olhos, mas não enxergam, e ouvidos, mas não escutam”, será uma crítica aos jovens?

“Mektoub My Love: Intermezzo” pode ser considerado o “filme da cantora Anitta”, por causa de seus incansáveis “bate bunda” versus a dimensão ficcional de uma narrativa diegética, à parte da realidade externa de quem vê. É orgânico, instintivo, primitivo, inerente, impulsivo e físico, quase um documentário, quando nos apresenta a nudez hiper naturalista e suas mitológicas picardias cúmplices dos “sex pigs”.

É também sobre novos encontros e sobre aumentar o círculo de amigos por abordagens diretas (iniciados por xavecos a garotas sozinhas em uma praia e ou em uma boate), como um episódio do programa Geordie Shore. Eles conversam e se conhecem, traçando afinidades afetivas, ameaças ou amizades. É a filosofia do coloquial que tira a sensibilidade aguçada dos dramas ciumentos. São inconscientemente salvos. Uns resolvem seus problemas com sexo, outros com dança, outros esperam o amor simples, outros “quando amam, provam”.

Nesta segunda parte, o foco é a liberdade feminina de se divertir sem limites. Em uma versão libertária e sem tabus sociais do seriado “Sex in The City”. De rebolar com intensidade durante horas e de permanência estendida ao espectador. De escolher quem beijar e ficar. De flertar, insinuar e “partir para o abate”. São sexy e sensuais, mas não sexualizadas. Entre pedidos insistentes (quase inconvenientes), hesitações silenciosas e de timidez que não tem a “manha” de ser escondida, aqui, a música é de batidas eletrônicas como uma festa Rave, e inclusive com “French Kiss”, de Lil Louis, que também está na trilha sonora de “Clímax”, de Gaspar Noé. Sim, alguns dirão que é um filme machista e já apelidaram seu realizador de “velho tarado”.

“Mektoub My Love: Intermezzo” não é totalmente autônomo, precisando do “Canto Uno” para uma melhor degustação. E para entender a personagem Amin (interpretado ator Shaïn Boumedine), mais aprofundado no anterior (“um homem de gostos simples”) e que aqui é o mais misterioso por seus constantes risos e beijos sem sal de olhos abertos.

É um filme que estende a observação. Que se traduz pelo tempo real, para assim mostrar o vazio após a intensidade dos momentos de diversão. É a adrenalina em sua mais pura essência que versa sobre Ophelie (a atriz Ophélie Bau, que venceu Melhor Atriz no Troféu Vertentes Do Cinema), devido a entrega a seu papel sem o querer do retorno. Sim, é tão espontâneo que quando acaba nós nos perguntamos se realmente acabou.

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