Medeia por Consuelo de Castro

Entre o palco e os pixels

Por Vitor Velloso

Belas Artes à la carte

O academicismo cinematográfico encontrou uma alternativa para transar com o modernismo tardio e uma espécie de “nova” articulação ao pensar a adaptação teatro-cinema. “Medeia por Consuelo de Castro” de Gabriel Fernandes e Bete Coelho é um projeto sintomático em um momento pandêmico. Apesar de outras correspondências do tipo, como “Trágicas” de Aída Marques, a peça-audioisual não consegue se distanciar muito das padronizações da linguagem arcaica dos acadêmicos. Seus esforços em construir uma dimensão que compreenda a performance a partir de sua relação com a objetiva, parece estar sempre no impasse de uma forma que não se impõe diante das limitações em ambos os campos artísticos. 

A peça-filme trabalha com especializações típicas do campo teatral e uma relação com o tempo que não consegue traduzir à imagem cinematográfica. Passa a dialogar com uma exposição pictórica de pequenos recortes para seccionar o olhar do espectador para locais particulares de sua encenação. Essa fragilidade, se impõe no ritmo com tamanha força que é difícil manter-se interessado no texto, já que o trabalho realizado está entre Aída Marques e Jura Capela (A Serpente). Aqui, a misancene não é particularmente uma articulação do espaço e tempo, mas uma exposição possível de uma peça durante o período pandêmico, composto a partir de um entrelace de recortes específicos. Por esta razão, é difícil animar-se com “Medeia por Consuelo de Castro”, por mais que as interpretações e escolhas artísticas possam funcionar em palco, o negócio fica bem complicado na “tela grande”. 

Pode ser que o entusiasmo pelo texto original, pela adaptação da Consuelo, e pelos atores (em especial, Bete Coelho) consiga angariar o público para acompanhar o lançamento na plataforma do Belas Artes, e assim espero, mas é difícil acreditar que irá empolgar o espectador que não esteja neste recorte específico, pois essa relação conturbada na adaptação, faz com que o ritmo seja excessivamente dilatado. Apesar do texto de Consuelo possuir méritos notáveis, existe aqui uma espécie de justaposição de questões limítrofes do posicionamento entre tempo e espaço em um processo de transposição (ou outras palavras possíveis). E esse confinamento da experiência à particularidade formalista e acadêmica dá o tom do “média-metragem” que pouco consegue se desvencilhar de um fantasma formal, mas que se esforça em conscientizar-se de suas escolhas morais e éticas diante dessa transformação. Não à toa dialoga diretamente com o digital, nas duas frentes. 

Ainda que a peça-filme não consiga grandes feitos, recorrendo à plasticidade da construção como elemento fundamental para o funcionamento de resoluções internas dessa linguagem, é importante que a obra tenha encontrado um espaço no mercado (para além de sua exibição gratuita no YouTube). O feito da Cia. BR116 deve ser analisado por outros grupos, para que haja alguma veiculação para além de leituras e vídeos à disposição em plataformas que não pagam, ou muito pouco. 

“Medeia por Consuelo de Castro” é um exemplo de fragilidade, porém demonstra grande paixão em sua feitura, já por isso deveria ser discutido. A forma que seu registro é projetado para o público também é objeto de interesse, não a categorização “peça-filme”, “teatrofilme” ou qualquer coisa do tipo, mas as possibilidades de trabalhar o campo e texto teatral para o cinema por conta da pandemia. Trata-se de um exercício de distribuição que possui algumas particularidades e desafios específicos, sendo um caso situacional, já que a realidade atual é o isolamento social. A pergunta, já clichê, é a possibilidade de continuidade após o cenário. Possivelmente, novos projetos, em quantidades menores. 

Independentemente, a peça-filme de Gabriel Fernandes e Bete Coelho não se sai muito bem no jogo de adaptações, mas nos relembra que a adaptação da adaptação, realizada por Consuelo possui algumas camadas dramáticas de reverberações interessantíssimas. É compreensível o desejo de realizar o projeto, porém o resultado pode ser frustrante, seu academicismo cansa e o esteticismo é pouco honesto. 

Trailer

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