Medea

Herança trágica

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

O cinema já adaptou Medeia tantas vezes que uma nova versão levanta certas dúvidas de imediato, mas “Medea” de Alexander Zeldovich é um filme que diverge da grande maioria.

Exibido na Concorso Internazionale, o longa cria uma trajetória um tanto peculiar para a personagem. Apesar de algumas referências imediatas a outros longas, a produção é quase uma antítese da obra de Pasolini, por exemplo. Enquanto o cineasta italiano trabalhava o mito solar como ponto catalítico da própria tragédia, Zeldovich adentra na crueldade e na insanidade como consequência trágica. A inversão moral cria uma base estrutural que se distingue de maneira explícita. Não só a adaptação para o século XXI gera uma série de recortes distintos do mito original, como algumas provocações podem ser feitas em espaços e contextos já estabelecidos. Pouca coisa pode ser tão direta quanto à ida a Jerusalém. A ideia do pecado como um nervo da irracionalidade diante do destino é o que faz a tragédia do filme ser tão provocativa. A protagonista fala o fim dessa história como se julgasse quem se dispõe a ouvi-la. Sua loucura é como uma febre que revela o cancro da sociedade, nem no orgasmo ela se mantém sóbria. O ódio contagioso que cresce nela se torna uma morte repentina, de caráter volátil, ébria de vingança pelo futuro.

Nesse sentido, é como se a consciência humana de Jesus fosse a oposição de “Medea”. Seu fascínio pelas crenças é um motor para desafiar certas estruturas de poder, tanto o marido, judeu-rico, quanto o bilionário que objetifica as mulheres e é odiado ao seu redor. Os múltiplos gozos ao longo do filme criam um caráter místico para o sexo, que não é apenas um ponto transgressor, mas uma manifestação violenta do desejo. Aqui, existe uma instrumentalização da forma como recurso estilístico para as cenas, em alguns momentos chega a incomodar já que há uma tentativa insistente na estranheza da encenação. Porém, a caracterização consegue traduzir o frenesi trágico com uma precisão constante, as roupas e as cores não mimetizam a narrativa, adicionam uma perspectiva ébria dessa efervescência inevitável da tragédia.

O sexo e a religião são gatilhos relativamente comuns na maior parte das obras que trabalham o preenchimento, mas aqui o trato é rigorosamente extremista, provocando concussões na moral religiosa. O diálogo no hospital é o limite dessa operação, mais uma situação onde os escrúpulos foram abandonados para o incômodo do outro. É curioso como “Medea” constrói a protagonista em função da situação, ou seja, de outros personagens, como um alimento constante de vingança e ressentimentos impossíveis de estancar. Apesar do espectador conhecer o fim dessa história, existe uma certa apreensão de como isso vai se resolver visualmente na obra, já que os extremos são empurrados toda hora. Mas apesar das resoluções conscientes e a construção através do caráter mítico dos espaços e das ações, existe uma queda de interesse pela narrativa em determinado momento. Próximo à metade, existe uma exaustão inevitável das repetições dramáticas, com as discussões aos berros e as frases ditas repetidas vezes. É um momento de transição e existem algumas sequências que realmente não funcionam e fazem o ritmo desandar.

Ainda que não seja um filme engraçado, há uma ironia bastante ácida que chama atenção. A introdução de “Jasão” na história, a burguesia perturbada pelos próprios fantasmas, o homem chorando no banheiro, ou mesmo o “presente” de Medeia (um pouco mais pragmático aqui), criam um universo de tensões que estruturam uma climax onde a tragédia já conhecida, possui uma posição distinta nas relações, inclusive materiais. Ele pedindo moeda para conseguir entender o que está acontecendo é uma afronta prazerosa de ver.

“Medea” traz a Concorso Internazionale para uma melhora substancial, mas apesar de funcionar muito bem durante parte da projeção, se caracteriza como um projeto que segue certos padrões de perto. O vácuo que existe no meio, provocando a queda de ritmo, é uma demonstração de como algumas ideias desembocam no lugar comum da estética européia, seus tempos e suas investidas na estranheza do cotidiano. Ainda assim, é uma experiência particular o que essa adaptação consegue provocar com esse desejo febril por vingança a partir de uma consciência trágica que guia os personagens, do sol ao solo.

Trailer

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