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Mateína – A Erva Perdida

A perseguição do hábito e da cultura

Por Vitor Velloso

Mateína – A Erva Perdida

A coprodução latino-americana, envolvendo o Uruguai, Brasil e Argentina, chega às salas de cinema após a rodagem de sucesso nos festivais. “Mateína – A Erva Perdida” de Pablo Abdala e Joaquín Peñagaricano, é um longa que segue uma certa tendência na formulação de um realismo fantástico, ou um futurismo, na idealização de uma realidade próxima, repleta de correlações com o presente, onde a sociedade é projetada em diferentes tempos.

Está certo que o gênero já foi consolidado há algum tempo, mas ir notando as investidas em novas representações das instituições e debates em torno da realidade objetiva e material, faz com que a experiência se torne particularmente divertida dentro desse contexto de relativização histórica e fugacidades formais. Um exemplo disso, é notar como a moral de um personagem, ou um grupo, pode ser confrontada com um simples corte na montagem, como na cena do porco. Essas breves tiradas, capazes de sintetizar a construção em movimentos curtos e cirúrgicos, fazem parte de um projeto que compreende a encenação em tempos divergentes, tanto na relação dos personagens, como na duração dos planos. Assim, quando vemos uma figura representativa do aparelho estatal, um policial, cobrar de outro agente, o serviço de dar cabo na empreitada de dois contrabandistas de mate, e em seguida, tomar chá de mate, a trajetória cômica e dramática não se perde em dois polos contraditórios.

Desta forma, “Mateína – A Erva Perdida” não secciona sua proposta em duas frentes que precisam se encontrar em determinado momento, pois elas funcionam de maneira única. Não por acaso, não há grandes ciclos a serem fechados ao fim da projeção, já que a materialidade desse universo é inequívoca na abordagem e não necessita de digressões para se encerrar. Tal questão é relativamente comum em obras que utilizam os elementos fantásticos de maneira escapista, sem analogias políticas e sociais com a contemporaneidade, especialmente quando a motivação vem de uma capitalização dessa relação do material e mitológico, elemento essencial para compreender o gênero na América Latina, quase que natural.

Existe aqui uma certa relação de heróis improváveis, atrapalhados, com intenções distorcidas pela sociedade, que acaba virando uma proposta próxima à “Forrest Gump – O Contador de Histórias” e pró-mate, ainda que algumas interpretações paralelas possam ser feitas aqui. Ainda assim, não deixa de ser divertido, já que sem as glórias de feitos passados, estamos observando os salvadores do mate de um futuro não tão distante, longe de ser distópico na estrutura da sociedade, mas que se configura como tal pela proibição do consumo de uma erva culturalmente comum à América Latina. Brasil e Paraguai, possíveis destinos dos protagonistas, são lembrados em falas que os citam como possibilidades de produzir a “erva perdida”. Se proibissem o café, algumas regiões brasileiras se encontrariam mergulhadas em uma profunda crise.

“Mateína – A Erva Perdida” é capaz de construir rapidamente algumas passagens divertidas, sem perder o ritmo dessa projeção cômica, como o momento em que após o abastecimento do carro o funcionário, e conhecido dos personagens, implora por uma ervinha. Aliás, o primeiro plano que dá início a essa sequência possui um trabalho de profundidade de campo bastante particular, reforçando que a fotografia não apenas serve à um certo realismo, como é capaz de estruturar a realidade a seu favor, em contornos e contrastes. Contudo, se existe uma certa organicidade presente nessa dinâmica interna das cenas, o mesmo não se pode dizer da narrativa de maneira geral, que por vezes parece ir se perdendo nessas relações de estrada, onde as relações dramáticas vão dando espaço para um certo maniqueísmo formal, entre os tempos e espaços.

Por fim, nada disso tira um certo brilho latino-americano que emana durante a divertida projeção, que perde pouco em um certo preciosismo de inserção no contexto cultural, mas ganha muito na formulação de sua história.

3 Nota do Crítico 5 1

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