Mataram Nossos Filhos

A vingança é ficar vivo

Por Vitor Velloso

“Lembro o finado Joquinha, tomou tapa na cara
Esse rosto mamãe beijou, mano, vou me vingar”

Como uma espécie de apresentação ao público do significado da luta das “Mães de Maio”, que representa a luta contra aquilo que há de mais nefasto na história das relações políticas brasileiras, o massacre constante, absolutamente etnocida, Susanna Lira, figura já conhecida no cinema brasileiro, diretora de “Torre das Donzelas”, nos apresenta aqui em “Mataram Nossos Filhos”  a dor de mulheres negras e periféricas, que perderam seus filhos em ações policiais. Entrando para o hall de obras que estão dispostas a expor a dor de um povo “invisível”.

Uma obra como “Auto de Resistência”, de Natasha Neri, Lula Carvalho, dialoga diretamente com toda essa nefasta realidade que nos cerca ou marca a pele. A tentativa de criminalização da pele negra, no Brasil, se dá não só através de nossa História e da manutenção da mesma através da cultura, exemplo o quarto de empregada. Durante toda a projeção de “Mataram Nossos Filhos” é possível refletir sobre os mecanismos que são utilizados para a chacina que se dá na sociedade. A militarização da polícia, a argumentação que há uma guerra em curso etc. O inimigo, por sua vez, tem nome e tem cor.

O aparato racista, a própria segurança pública, que espalha o terror pelas favelas brasileiras, não possui rosto. Eleger o inimigo, dar o nome dele, ainda que por vezes impronunciável, vestindo sua toga e sendo eleito ao Governo do Estado, não resolve o problema. A justiça jamais vêm a estas mulheres, que sangram a dor dos seus filhos e zelam pelo direito da vida dos que aqui sobreviveram. “Nossos Mortos Têm Voz”, diz uma mãe durante o filme.

“Mas não há nada que se compare
À dor de perder quem não tá pronto pra partir
Dobro da minha disposição, metade da minha idade
E nem um terço da oportunidade que eu tive”

O choro dessas mulheres deveria ser ouvido por cada político, por cada policial, por cada cidadão, do alto prédio, por que do alto do morro, o tiro abafa. E “Mataram Nossos Filhos” traz à tela, a luta diária e constante das Mães de Maio. Com toda a conjuntura que cerca o povo brasileiro, a mulher negra segue tendo que segurar o filho morto, enquanto aquele que detém o poder, sai impune de todas as suas ações, por incriminar a vítima.

Em um dos relatos, o feminicídio é exposto. Quando um policial atira na cabeça de uma mulher grávida, após ser informado que a mesma carregava uma criança em seu ventre. A resposta é: Não está mais. E a bala na cabeça.

“Enquanto não houver justiça pra nós
Juro que pra vocês não vai ter paz”

Em um lema de lealdade à dor do próximo, de coletivismo solidário perante a face da morte, essas mulheres se unem para garantir que não haja a perpetuação da impunidade da segurança pública.

“Armas e droga é fetiche dos cara
Porque não sabem o estrago que faz
Na vibe do som meu swing é do jazz
Pra nunca mais ter que ouvir o aqui jaz”

Susanna Lira manipula seu material, construindo de maneira lógica todas as etapas do processo árduo de enfrentar o Estado e angariar forças para continuar na luta. O documentário possui um ritmo orgânico, onde consegue dar o tom da dor pro espectador, ainda que, por vezes, busque manipular seus sentimentos através de algumas sequências. Como a que encerra o longa. Mas que não o faz perder potência, pois relembra o clipe “Hoje Não”, do Djonga, onde ele muda a realidade do assassinato de Ágatha. E nos faz enxergar que, no Brasil, na América Latina, não temos tempo de salvar Sharon Tate, mas podemos, quem sabe, re-imaginar, Ágatha viva. Jhonata. Edson. Marcos Vinícius. Jenifer, Kauã. E tantos outros.

Para que não seja reduzido a números, estatística e sejam engavetados no armário da burocracia estatal, “Mataram Nossos Filhos” é realizado, em apoio à luta dessas mulheres. Susanna Lira não está apenas nos holofotes enquanto realizadora, mas como uma mulher que filma mulheres e as defende, como pode. Aqui, uma câmera. A música citada durante a crítica é “Não sei Rezar”, Djonga.

Trailer

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