Masculino-Feminino

Sociologia para iniciantes

Por João Lanari Bo

Masculino-Feminino”, de 1966, é um filme de transição no primeiro período do corpus godardiano. Transição: passagem de um ponto a outro, de uma ideia a outra, ou de um filme a outro. Até aquele ponto, a veia lírica do diretor – como em “O Desprezo”, de 1963, ou “O Demônio das Onze Horas”, de 1965 – destacava-se e conquistava espectadores. Mas um certo tom áspero emanava de filmes que tratavam de assuntos políticos, como “O Pequeno Soldado” e “Tempo de Guerra”, ambos de 1963. “Masculino-Feminino” de certa forma faz um mix narrativo desses dois estilos, sempre no modus operandi caro ao realizador: não havia roteiro; um caderno espiral com ideias e diálogos geralmente escritos na noite anterior orientava a encenação. Essa espécie de construção empírica do acontecimento cinematográfico, ao sabor dos fragmentos absorvidos ao longo do devir existencial do cotidiano – notícias, literatura, percepções, afetos – parece exercer sobre o diretor um fascínio metodológico. Mack Sennet, o pioneiro das comédias pastelão, fazia um filme atrás do outro, ou um ao mesmo tempo do outro: Godard, referindo-se a Sennet, dizia: “O cinema, que copia a vida, que se tornou a vida, que representa a vida, o cinema começou assim: não se fazia roteiro; não se escrevia. Eles saíam e filmavam”. No caso em tela, o filme começou no escritório do editor Daniel Filipacchi, que produzia revistas populares para adolescentes e adquiriu o venerável Cahiers du cinéma em 1964 (vendeu em 1969, quando o Cahiers virou maoísta). A juventude como objeto sociológico de pesquisa – e a vontade de fazer um filme sobre isso – apareceu para Godard através da observação dos bastidores de publicações como Salut les copains e Mademoiselle âge tendre, cujos títulos indicam, sem rodeios, o público a que se destinam.

Claro, não faltaram também referências eruditas: Anatole Dauman, o famoso produtor, sugeriu nesse meio-tempo dois contos de Guy de Maupassant, escritor do agrado de Jean-Luc. No filme, o personagem Paul, vivido pelo impagável Jean-Pierre Léaud, foi tirado do conto “La Femme de Paul”, escrito em 1881 (posteriormente o escritor mudou o título para “Femme Fatale”) – a história gira em torno de barcos, rio Sena, crueldade e sexualidade. O outro conto que serviu de baliza foi “Le Signe”, igualmente provocador e bem humorado: uma prostituta em uma janela pesca homens; para se divertir, uma mulher respeitável a imita e logo descobre… Apresentada pelo editor Daniel, a cantora pop de matinés Chantal Goya caiu como uma luva para o principal papel feminino (dizem que Sylvie Vartan, ex-amante de Daniel, teria sido sondada e não aceitou). Todo esse material, Maupassant e imaginário adolescente, foi processado pelo filtro godardiano e transformou-se em “Masculino-Feminino”: jovens atores em uma série de entrevistas no estilo cinema vérité sobre amor, sexo, Vietnam e política. Dividido em 15 segmentos pontuados com som de tiros, um perfil melodramático, na linha dos amores não correspondidos, se sobressai: Robert (Michel Debord) quer Catherine-Isabelle (Catherine-Isabelle Duport), que quer Paul, que quer Madeleine (Chantal Goya), que dorme com Paul e se diverte com Elisabeth (Marlène Jobert). Além dessa intriga lésbica, um beijo entre dois homens é flagrado por Paul, imagem rara nas produções do franco-suíço.

Em outro meio-tempo, Godard, que fez 35 anos durante a produção, havia rompido com Anna Karina e iria ligar-se à Anne Wiazemsky, muito mais jovem do que ele. Brigite Bardot faz uma aparição fugaz e fulgurante na mesa do bar, tomando café: e Françoise Hardy também, mais discreta, como a esposa de um oficial americano. Para a audiência no Brasil, “Masculino-Feminino” tem uma importância histórica especial: Paul/Léaud entra no bar e assina, logo no começo do filme, uma moção de solidariedade a oito brasileiros detidos por protestarem contra a ditadura, no Hotel Glória carioca. Foi em 17 de novembro de 1965: o Presidente Castello Branco chegou no hotel para participar de Conferência da Organização dos Estados Americanos (OEA) e foi recebido com vaias e faixas: “Abaixo a ditadura”; e, para os delegados estrangeiros, “Bienvenidos a nuestra dictadura”. Eram nove os manifestantes: os jornalistas e escritores Antonio Callado, Marcio Moreira Alves e Carlos Heitor Cony; os cineastas Glauber Rocha, Mário Carneiro e Joaquim Pedro de Andrade; o embaixador Jayme de Azevedo Rodrigues; o diretor teatral Flávio Rangel; e o poeta Thiago de Mello. No dia seguinte, o jornal “O Globo” noticiou na primeira página “Esquerdistas fazem arruaça e acabam presos pelo SOPS” (SOPS veio a ser o famigerado DOPS, Departamento de Ordem Política e Social). Foram todos para o Batalhão da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, Tijuca; exceto Thiago de Melo, que escapou antes da chegada da Polícia.

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