Martin Eden
O Inconformista
Por Jorge Cruz
Durante o Festival do Rio 2019
“Martin Eden“, exibido no Festival do Rio 2019, chegando dois meses depois no circuito comercial brasileiro, geralmente vem acompanhado de um fato: Luca Marinelli foi o único a vencer Joaquin Phoenix em categoria de atuação sempre que “Coringa“ esteve no páreo. Isso aconteceu no Festival de Veneza 2019. A ironia é que em nenhuma outra mostra onde o longa-metragem aportou o ator repetiu o feito.
Todavia, “Martin Eden” é bem mais do que isso. Adaptação de um dos primeiros romances de Jack London, abarca a fase em que o norte-americano se tornou ativista da causa socialista. Começou aos 22 anos a escrever essa obra autobiográfica, em que ele nos mostra com certo didatismo seu processo para se tornar escritor. Lançou quando tinha 33, já conhecido por livros como “O Chamado da Floresta” (que chega aos cinemas uma semana antes em adaptação da Disney estrelada por Harrison Ford) e o absoluto, “Caninos Brancos“.
O diretor Pietro Marcello ambienta “Martin Eden” em uma estética que nos remete aos clássicos dos anos 1960 e 1970. Por vezes a sensação é de que estamos no mesmo universo que Bernardo Bertolucci criou em “O Conformista“, drama que se passa sob o regime do governo Mussolini que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar como melhor roteiro adaptado e o colocava de vez no jogo dos grandes diretores da época. A diferença óbvia é que o protagonista vivido por Marinelli se revela um homem bem mais admirável. Como qualquer obra sob a perspectiva romanceada, vamos nos envolvendo com suas descobertas e como sua consciência no olhar crítico sob o “campesinato rico” se desenrola.
Até pela estrutura épica ser a escolha acertada para manter a fidelidade do material, há certa valorização da paixão – em sentido amplo. A câmera realça essa idealização da vida comum aos jovens, que acham que nunca serão cobrados por ela. Essa consciência permeia todo o longa-metragem, desde a melosidade já citada até a trilha sonora próxima da música italiana brega dos mesmo anos 1960 e 1970, como Peppino di Capri e derivados. Esse suposto anacronismo, uma vez que estamos no início do século XX, se justifica a partir das referências do próprio Marcello (nascido em 1976) e do co-roteirista Maurizio Braucci (um dos responsáveis pela adaptação de “Gomorra” em 2008 e nascido em 1966).
“Martin Eden” ganha força quando contrapõe teoria e prática no que tange à conduta política. Seu protagonista a todo momento ganha novas lições na “escola da vida” a ponto de questionar que fala muito de luta de classes e não se coloca na trincheira. Ao pensar sob essa perspectiva, o amadurecimento da escrita da personagem de Marinelli (e só mesmo Veneza para preterir Phoenix, apesar do bom trabalho do italiano) é um processo de absorção do realismo muito comum na época de London e que dialoga diretamente com a produção literária dos últimos anos – principalmente em países e autores periféricos. Mais uma vez, é interessante como a montagem da dupla Fabrizio Federico e Aline Hervé transforma o filme no segundo ato, quando todas essas mudanças são observadas.
Com isso, saem as canções bregas e entra uma trilha mais oitentista, com o uso de sintetizadores. As feições do Luca Marinelli se fecham e a personagem está pronta para se voltar, de vez, à comunidade. Essa sensação de mudança vem acompanhada de micro-referências visuais bem classudas, como uma construção de direção de arte em uma cena de festa no jardim muito parecida com a introdução de Michael Corleone em “O Poderoso Chefão” (1972). Essa maneira de sobrepor os ciclos de Martin Eden por um lado elucidam sua trajetória, mas por outro torna de certa forma irregular o ritmo da obra.
Até porque em dado momento o filme abordará o processo criativo do escritor (não esqueçam que se trata de uma autobiografia romanceada de Jack London) com uma narrativa documental contemplativa, vinculando o protagonista a um contato com a natureza que destoa da perspectiva mundana do restante da obra. É quase como se aceitasse a tese do autor original de que o socialismo é, de fato, um fantasma (ou um sonho de verão). Adiciona o rancor como elemento fundamental da trama, tornando a verborragia algo inescapável no discurso do protagonista, como se o ciclo do capital fosse inevitável, fazendo com que uma nova pessoa se erga.
Com isso, a atuação de Luca Marinelli vai tornando sua personagem algo próximo da excêntrica, fazendo o cineasta Pietro Marcello perder um pouco a mão ao tentar a emulação da já citada obra de Bertolucci ou até mesmo Luchino Visconti em “Morte em Veneza” (1971). Parece flertar com a inconclusividade e retrai de uma maneira questionável, transformando a parte final de “Martin Eden” algo mais próximo da comédia de absurdo. Se há a elevação desses diretores ao patamar de mestres (ou somente referências da obra), Marinelli esquece que eles estão bem distantes do cinema aqui apresentado, e, mais fundamental do que isso, o espectador não está mais na sociedade do início dos anos 1970. Ou seja, um longa-metragem recheado de méritos, mas que não vai além por seu realizador cair na tentação maneirista de comprar a ideia de que nasceu na época errada.