Marighella

Dando nomes aos bois

Por Ciro Araujo

Poucos filmes ficam no cânone histórico brasileiro sobre sua própria produção. Sempre bom lembrar da bagunça que foi a produção de “Chatô, o Rei do Brasil”. Talvez, “Marighella”, primeiro filme de Wagner Moura, reverbere essa mesma sensação de uma grandiosidade enjaulada, tanto por culpa de si mesma e seu processo narrativo como por culpa externa, de terceiros. Isto é, se é que a culpa pode ser exclusivamente externa, já que a história que ficou no final das contas foi de um próprio boicote dos órgãos ligados à sua distribuição e a comemoração de um presidente tão inapto ao lançamento cancelado da obra. A demora foi tanta, uma versão online e alguns produtores frustrados debatendo sobre a pirataria no Brasil depois, o longa-metragem finalmente atinge justamente a quem ele precisa atingir, ora, o povo.

Como qualquer outro épico, Moura decidiu utilizar uma mediana bem típica no gênero: entre duas a três horas. Ele parte do princípio de que esse tempo é necessário para a produção de um bom drama sobre um guerrilheiro. Que ele decida o que é melhor, mas realmente, “Marighella” quer e transmite imagens de força e grandiosidade. Talvez o diretor, saindo de gravações próximas de Fernando Meirelles, interessado nessa visão mais fantasiosa do negócio e também bem mais interessado por um Tarantino da vida, achou que era ali que encontraria seu lugar. São cenas fechadas, gravadas à mão, steadycam, no maior apreço visual por uma câmera tão ativa esteticamente, preparada para dar ao público, sentado, um grandioso espetáculo.

Citar espetacularização é um ponto chave para se compreender essa obra. Wagner simplesmente decidiu realizar seu primeiro filme sobre um militante, temporalidade dos anos 60 pós-golpe e tudo isso numa produção Globo Filmes. O pulo do gato sempre está à espreita. Numa tentativa de jogada do filme mais filme para uma época onde o fascismo está tão à espreita, na esquina em que viramos, apagar registros que definem tanto a pessoa de Marighella quanto o representa a resistência de época. Claro, é um filme, acima de tudo, dramatizado, um filme biográfico que não representa a realidade, etcetera. Em uma cena representando uma entrevista real, de forma deturpada, utiliza-se da pergunta de que ideologia o professor, deputado, poeta (e, quando livre, também guerrilheiro, porquê não?) seguia. “Eu sou brasileiro”, usa, no longa, um chavão também proferido na mesma entrevista, apesar de em outro contexto. A produção de Wagner Moura omite claramente como Carlos se considerava, um marxista-leninista, para despolitizar todo o discurso. A relação da produção Globo, apesar das mea culpas da ditadura de anos atrás, torna-se evidente. Não apenas, como evidencia politicamente aonde um filme desses se encontra. De toda forma, também não é fácil escrever tal obra.

A cereja no bolo é a produção do personagem central de Lúcio, interpretado por Bruno Gagliasso. Certo, a produção (novamente) pode ter preferido por motivos jurídicos evitar o uso de vários nomes reais, mas, como um dos momentos político-sociais mais fétidos do país não pode se esquecer, aqui vai: o nome do torturador é Sérgio Fleury. Não é Lúcio. A censura que com certeza é consciente aqui, traz uma revelação no personagem. Ele é um trabalho oportuno de procurar, novamente, inspirações nessa produção irônica, talvez até sedutora, que Hollywood produz. Vilões e anti-heróis. Daria um bom estudo, inclusive. Gagliasso atua com toques de Hans Landa, mas com uma perversidade tão caricata que repassa grande responsabilidade estatal e sistemática para o simples personagem violento. É, na realidade, uma grande brincadeira de gato e rato. Quando irão matar Marighella? O filme, que recria um revisionismo necessário, claro, parece simplesmente também não realizar essa tarefa e sim sucumbir ao próprio sistema. O personagem do DOPS é o grande vilão do filme. Como, em um filme sobre a ditadura e seus horrores, que foca em tantas linhas narrativas confusas, repassar o vilanismo, o foco, para um ser fictício? Personagens viram apenas grandes espetáculos ideal para aqueles que assistem, fragilizados de suas cadeiras na Europa, a criação do bem e o mal. Não entendem o quanto falar sobre ditadura na América Latina é mais que a beleza na luta armada. A resistência é muito mais profunda para além disso; “Marighella” parece no final das contas ignorar absolutamente o símbolo de seu próprio nome para voar tão alto e soltar confetes enquanto choram pela morte de um ídolo.

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