Maria e João: O conto das bruxas

Maria e João Atacam Classe e Gênero

Por Daniel Guimarães

Como um retrato do momento em que é lançado, a nova versão cinematográfica do conto “João e Maria”, adquire corpo através da contestação social. Nesse caso, “Maria e João: O conto das bruxas” está ciente de um tempo de discussões afloradas ao reconstruírem o universo de florestas e bruxas dos Irmãos Grimm. Dirigido por Oz Perkins e roteirizado por Rob Hayes, o longa traz Maria como a inegável protagonista, lutando para sobreviver junto de seu irmão mais novo em tempos escassos de alimento e trabalho. É nesse trajeto que encontram a icônica casa na floresta, onde o que não falta,claro, é comida.

O espelho de seu tempo é perceber que, mesmo a fome e a escassez sendo o centro narrativo do conto original, sua adaptação para o longa-metragem parece ir além e flerta com um retrato de classes e de trabalhadores de fato. O questionamento sobre a abundância é constante, trazendo o problema sistêmico do cultivo, com exploração dos que nele trabalham, além do enriquecimento abusivo do senhor feudal. Além disso, a fartura em próprio favor também é questionada, com Maria repetindo frequentemente que nada se dá sem algo ser tirado em troca. Com isso, a bondade sempre soa estranha, como se algo estivesse inerentemente errado naquele ato. E, nessa história de horror, há mesmo.

Porém, esta sequer é a principal temática social que permeia “Maria e João: O conto das bruxas”. O empoderamento e protagonismo feminino, através do olhar da mulher é, sem dúvidas, o principal elemento narrativo. São diversos os fatores para a afirmação, a começar pelo seu já explicativo título, invertendo a “ordem” dos personagens do conto. Desenvolvendo-se para além isso, explora-se a situação do trabalho impostos às mulheres, quase sempre envolvendo o uso invasivo do próprio corpo. Também se subverte a expectativa sobre a vilania das bruxas. Aqui, assim como no excelente “A Bruxa”, os poderes de uma bruxa são representações materializadas do poder feminino reprimido socialmente, apelando para a linguagem do exagero. Exposições esporádicas, como citações a dificuldades maternais e a capacidades perceptivas das mulheres, também são recorrentes. Porém, o ponto mais básico é também bastante significativo: a perspectiva. Todo olhar é o de Maria, suas impressões, descobertas e experiências sobre si mesma são as que se sobressaem em tela.

Dentro de uma história já contada de diversas formas, os dois simbolismos são bem-vindos, principalmente por serem bem conduzidos na maior parte do tempo. Aliados a uma atmosfera que, em um primeiro momento, sempre soa sufocante através dos close-ups e da aproximação da câmera, com seu foco ampliado. Perkins faz isso “abafando” a imagem ao redor dos personagens, principalmente quando os irmãos se encontram esfomeados e perdidos na floresta. Em dadas passagens, as cores fortes e chamativas juntam-se a uma elogiosa direção de arte dentro da casa para representar a abundância e fartura do ambiente, ao mesmo tempo em que ecoa o mistério, o medonho e o perigoso.

Porém, quando mais necessita de uma estrutura narrativa que amarre tematicamente todos os pontos com alguma coesão, ritmo e clímax, “Maria e João: O conto das bruxas” se expõe de forma mais vazia do que merecia. Enquanto se abraça aos retratos de classe e gênero o longa-metragem enriquece a narrativa clássica. Contudo, no momento de transformar o místico e o horror em algo concreto, com algum arco de desenvolvimento que englobe todos os espectros soltos e o converta em forma, o filme nunca se realiza, visto que parece não ter mais nada a dizer.

Dentro da casa o tempo se arrasta sem propósito por muitos momentos, aparentando não guardar mais nenhum conteúdo para continuar a conduzir a narrativa. A própria história da bruxa nunca parece fazer algum sentido estrutural. Seus desejos, seus dramas e sua própria origem não seriam um problema se a obra sequer os explorasse. Porém, decide por fazê-lo, explicando e trabalhando de forma didática e mirabolante esses fatores em uma conexão sem qualquer nexo do primeiro com o terceiro ato. Para além disso, o próprio desfecho dos protagonistas tampouco contém lógica, esclarecimento ou redenção. Não se conclui buscando os bons pontos, aqueles que funcionaram na ousada abordagem inicial de “Maria e João: O conto das bruxas” – quando  atrai discussões sobre classe e empoderamento. Todo esse trabalho se transforma em um simples maniqueísmo aleatório, surgindo em seu roteiro. Com isso, somente reforçam a ideia de uma obra que contém excelentes intenções e propostas trabalhadas em seu universo, mas que nunca se expande para além de suas importantes, porém momentâneas, representações.

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