Mangueira em 2 Tempos

Da Mangueira para o Mundo

Por Vitor Velloso

Durante Festival do Rio 2019

Seguindo a Premiere Brasil de Documentários, “Mangueira em 2 Tempos” segue um recurso comum nos documentários, uma fragmentação da narrativa em tempos diversos, mas não como um recurso estético ou coisa do tipo, mas sim aplicando parte de seu discurso a isso. Indo e voltando na linha temporal do filme para que uma construção histórica seja feita, tanto da escola de samba em si, quanto do bairro e das pessoas ali presentes. 

Dirigido por Ana Maria Magalhães, o longa vai buscar em raízes contemporâneas diversas vertentes de olhares distintos sobre o mesmo nome “Mangueira” e o peso cultural que ali reside. Costurando através dessa abordagem, pontos sociais e de violência policial enquanto retrata esse bairro tão carioca que perde a identidade regional para uma questão nacional muito maior, não por acaso a escola venceu o carnaval de 2019. As palavras “Brasil, o teu nome é Dandara E a tua cara é de cariri Não veio do céu Nem das mãos de Isabel A liberdade é um dragão no mar de Aracati Salve os caboclos de julho Quem foi de aço nos anos de chumbo Brasil, chegou a vez De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, é muito maior que qualquer discurso cultural regional. 

Cada vez que Ivo Meirelles conta uma história que viveu na Mangueira de seu tempo, a tradição oral é passada adiante como um peso que o Brasil deveria compreender a partir de sua História (H maiúsculo), para que parte do passado não se repita como erro histórico. E quando a diretora acompanha a vida das mulheres que desejam ser passistas, o filme ganha uma forma de representação do corpo feminino nas periferias, no samba e no funk, independente daquilo que cada uma acredita ou segue. O desenho ganha contornos políticos pelo simples ato de existir de cada uma daquelas mulheres e corpos que são filmados, pois para além da Mangueira, há uma carga que atravessa todo o documentário, que diz respeito a voz daquelas próprias pessoas. 

E se a campanha convencional política dos filmes brasileiros fosse aplicada aqui, veríamos novamente um problema de representação de uma cultura rica por olhares preguiçosos, dessa maneira é interessante ver como “Mangueira em 2 Tempos” assume um afastamento do objeto central em seu discurso pleno, salvaguardando às aplicações formais seus possíveis discursos acerca daquilo que é enquadrado. Assim, a montagem passa a ter o papel do recorte direto de Ana. E tal recurso possui uma quebra constante de ritmo narrativo, pois parece saltar entre as histórias a partir de pontos pouco concretos ao longo da projeção, se redimindo entre conjunções orais que surgem aqui e acolá. 

A funcionalidade do projeto é comprometida em determinadas situações, não que torne-se incompreensível, mas acaba transformando tudo em um amálgama de retalhos menos sólido que deveria. Já a compreensão de todos seus assuntos em uma unidade que é a Mangueira funciona bem, pois as relações são construídas através dessa mesma “bandeira”, logo, não é palpável que haja fugas drásticas do eixo central do documentário, pois a temática é rica demais para que se permita essas escapatórias narrativas. Ainda que a compensação seja brevemente aquém do esperado. 

Em um ano onde a Mangueira é campeã, o poder estadual no Rio de Janeiro louva atirar um bomba contra a rocinha, dispara a esmo em Angra, e o Governo Federal diz não ser possível a reprodução entre a população negra, “Mangueira em 2 Tempos” vem como uma forma de embate direto às políticas de repressão do governo. Como já dito anteriormente, a palavra “resistência” passa a ganhar uma fragilidade semântica e cultural com o passar do tempo, já que há uma tendência em banalizar a expressão para tudo que é contrário ao retrocesso de 2019. 

Não é um dos filmes marcantes do Festival do Rio de 2019, mas sem dúvida poderá ficar na mente de parte do público, já que possui uma força cultural que redimensiona a Mangueira ao Brasil com uma força única. Assim, a potência da obra é ampliada pelo contexto em que é lançada, como não poderia ser diferente, e ainda que formalmente não seja imponente, possui diversos sentimentos genuínos envolvidos em sua feitura e oralidade. Algo que o samba transmite, e agradece. 

 

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