Malévola: Dona do Mal

Entrando numa fria maior ainda com a Malévola

Por Pedro Guedes

Lançado em 2014 sob o comando de Robert Stromberg (que venceu o Oscar de direção de arte em 2010, por “Avatar“), “Malévola” trazia uma premissa bastante promissora: recontar a clássica história da Bela Adormecida sob a ótica da vilã, a madrasta Malévola. Infelizmente, o filme se acovardava diante da ideia de ser protagonizado por uma vilã, provavelmente temendo se transformar em um “mau exemplo” para as crianças – um temor que, convenhamos, não passa de falso moralismo. Assim, o roteiro de Linda Woolverton (“O Rei Leão”, “A Bela e a Fera”, “Alice no País das Maravilhas”) basicamente reduzia a personagem-título a uma madrasta boazinha, nada intimidadora e bem menos complexa do que deveria, só não se tornando um desastre completo graças à performance esforçada de Angelina Jolie.

Se “Malévola” já era uma releitura medíocre, o que esperar de uma continuação que busca espremer ao máximo uma fonte criativa já desgastada e que tenta desesperadamente encontrar alguma história nova para contar? Pois é, “Malévola: Dona do Mal” é mais um projeto cuja existência é motivada apenas pela ganância da Disney, soando como um caça-níqueis tolo e dispensável.

Escrito não só por Woolverton, mas também por Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue, este segundo filme começa com Aurora, mais conhecida como Bela Adormecida, sendo pedida em casamento pelo Príncipe Phillip, sendo imediatamente acolhida, portanto, pela Rainha Ingrith como se fosse sua própria filha. Isto, no entanto, desperta uma imensa revolta por parte de Malévola, que se recusa a aceitar que sua enteada possa enxergar a rainha como uma segunda mãe – e, depois que o jantar organizado para apresentar uma família à outra resulta em confusão, a madrasta vai embora e volta para sua terra natal, reencontrando outros seres místicos (e alados) iguais a ela. Enquanto isso, Aurora descobre que Ingrith está buscando uma forma de exterminar as criaturas voadoras da floresta – entre elas, a própria Malévola –, o que inevitavelmente leva os dois povos a se enfrentarem em uma guerra de proporções épicas.

Em seus minutos iniciais, “Malévola: Dona do Mal” até consegue divertir o espectador ao fazê-lo acreditar que o mote da narrativa será as intrigas entre a mãe de Aurora e a de Phillip, funcionando quase como uma espécie de “Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Malévola” (com direito, inclusive, a uma cena na qual as duas famílias se desentenderão numa mesa de jantar). Nada que “Shrek 2” já não tenha feito de forma infinitamente mais divertida, claro, mas… a ideia de ver uma briguinha entre os pais e mães ocorrendo dentro de um universo de conto de fadas não deixa de ser interessante. Infelizmente, não demora até que o roteiro de Woolverton, Harpster e Fitzerman-Blue jogue suas ideias mais promissoras no lixo, preferindo se concentrar em situações que não fazem o menor sentido e que vão se atropelando de maneira desastrosa, transformando o segundo ato em uma enrolação terrivelmente repetitiva, desinteressante e bagunçada.

Aliás, “Malévola: Dona do Mal” é um daqueles filmes que acreditam que seu público-alvo – no caso, crianças – é estúpido demais para entender o que está sendo retratado na tela, tratando o espectador como completo imbecil ao massacrá-lo com diálogos dolorosamente expositivos (quando Aurora mostra que o machucado em seu dedo é idêntico ao que está no do pai de Phillip, este constata: “É idêntico!“, como se já não estivesse óbvio o bastante). Para piorar, a direção de Joachim Rønning (responsável pelo mediano “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”) faz jus ao excesso de didatismo presente no roteiro, pausando constantemente a narrativa para se dedicar a longas explicações – e é claro que isto compromete o ritmo da projeção, que, mesmo durando menos de duas horas, se arrasta como se fosse bem mais longa. Como se não bastasse, a imensa batalha que ocorre no terceiro ato revela-se aborrecida e impessoal, não conseguindo sequer fazer o espectador se importar com a ação mostrada na tela.

Por outro lado, a figurinista Ellen Mirojnick (“O Rei do Show“) se sai bem ao contrapor o visual selvagem de Malévola e das outras criaturas da floresta à elegância dos reis, príncipes e súditos humanos, ao passo que o designer de produção Patrick Tatopoulos (“Eu, Robô”, “300: A Ascensão do Império”, “Batman vs Superman”) confere personalidade a boa parte dos cenários visitados ao longo da narrativa, transformando a terra natal da personagem-título em um ambiente que combina grandiosidade e primitivismo – é uma pena, no entanto, que os efeitos visuais façam questão de estragar até mesmo os aspectos mais vistosos da obra, convertendo imagens que poderiam ser visualmente belíssimas em projeções terrivelmente artificiais. Ainda assim, quem mais decepciona em “Malévola: Dona do Mal” é o compositor Geoff Zanelli, que, ao longo de sua carreira, fez vários trabalhos eficientes (ele colaborou com Hans Zimmer na trilogia “Batman”, por exemplo), mas que, aqui, cria uma daquelas trilhas que “comentam” praticamente tudo que acontece no filme da maneira mais óbvia possível (um tema engraçadinho aqui; uma musiquinha dramática acolá; uma melodia heroica mais à frente; etc).

A esta altura do campeonato, analisar as atuações chega a ser um exercício desnecessário, já que todos os membros do elenco se vêem presos a papeis aborrecidos e que oscilam entre o unidimensional e a pura caricatura: se Angelina Jolie apenas repete o que já havia apresentado no primeiro filme, sem trazer nenhuma evolução significativa, Michelle Pfeiffer dá vida a uma vilã tola e desinteressante, ao passo que Elle Fanning encarna uma Aurora sem personalidade e que, de tanto aparecer em cena, quase rouba de Malévola o posto de real protagonista da história. De todo modo, não há nada que se iguale à chatice das três fadinhas que vivem ao redor das protagonistas – e que parecem disputar entre si o posto de personagem mais irritante do longa.

Trazendo sequências de ação absurdas até mesmo para os padrões de um filme protagonizado por fadas, duendes e criaturas místicas (observem, por exemplo, como a estratégia de Aurora para fugir de um castelo depende de uma capacidade de adivinhação simplesmente infalível), “Malévola: Dona do Mal” ainda tenta causar um impacto emocional no terceiro ato mesmo que o espectador seja perfeitamente capaz de antever que aquele draminha será desfeito em questão de poucos minutos. Assim, a obra jamais consegue esconder a sua natureza de produto sob medida encomendado pela Disney, soando genérico e descartável.

Chega a ser irônico, portanto, que a cor representante da Malévola seja o verde-esmeralda tipicamente associado à vilania, já que, neste caso, ela também pode simbolizar o único fator capaz de justificar a existência de um filme como este: a ganância de uma megacorporação cada vez mais obcecada por dinheiro.

 

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