Mais Que Especiais

Materiais brutos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2020

Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não só o mundo perdeu a paciência e a humanidade em relação às pessoas mais fragilizadas que precisam de ajuda, como também os franceses e sua trilogia desses valores ideológicos. Exibido na mostra fora de competição do Festival de Cannes 2019, e que agora integra a seleção do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, o longa-metragem “Mais que Especiais” reitera a condução-crença de seus realizadores voltando a abordar a temática da amizade e de que qualquer existência necessita de cuidados e atenção, cujos “super-heróis” (“justiceiros” assistentes sociais não “especialistas”) lutam por dignidade com intermitentes tentativas de mudar o sistema  social, burocrático “sem rosto” e “distante da realidade”, quase robótico.

O filme, além de seu discurso-denúncia de viés mais “rebelde”, busca popularizar o tema sensível com suavização da polêmica pelas características do cinema americano, este que pode ser explicitamente simbolizado pelo boné americano do New York Yankees de um personagem, talvez querendo inserir a crítica de que quem se preocupa é um estrangeiro e/ou que a França precisa importar mais o comportamento dos Estados Unidos da América.

Dessa forma, “Mais que Especiais”, ao se revestir dos gatilhos comuns e padronizados da facilitação do roteiro, como ângulos-perspectiva de um autista, diálogos mais didáticos para explicar causas e consequências, alívios cômicos, almeja capturar seu público pela narrativa de compilação de gêneros: ação, romance, comédia, drama e thriller tensionado. É um filme de situações. De núcleos-esquetes, com sua câmera sempre na mão e no limite da ação. Esta obra é também tipicamente francesa, porque mostra o como e o durante as reações de seus integrantes sociais. E o respeito cúmplice não julgador.

O cinema francês, assim como quase todos do mundo, sofreu influências do cinema americano, tanto que, em 1959, o realizador François Truffaut escreveu um manifesto na Cahiers du Cinema em prol da “qualidade”. O que se “requeria” era permitir mais organicidade e espontaneidade a histórias até então apresentadas com “felicidades artificiais”. Hoje em dia nós podemos perceber um embate constante de moralidade ética pela implantação conservadora do politicamente correto. Temas deixaram ser questionados por serem “constrangedores” demais. O autismo é um deles. Seus portadores ficam dopados, longe de suas famílias e prisioneiros em instituições “desumanas”.

Seus realizadores Eric Toledano e Olivier Nakache (de “Intocáveis”, sucesso absoluto de público, não só na França) descobriram o filão social, conjugando câmera na mão, edição ágil e efeito comercial com a romantização cômica do tema a ser problematizado. “Mais que Especiais”, ainda que “divertido” e “engraçado” ao lidar com situações cotidianas, sempre no limite e altamente idiossincráticas, pode soar exploratório. Quando se ridiculariza o orgânico comportamento “diferente”, já por si só apela aos empíricos condicionamentos preconceituosos. Sim, alguns dirão que é uma crítica à uma sociedade hostil e a um sistema cruel e desumano, como já foi mencionado neste texto. Sim. Mas ao dar voz e colocar a lente de aumento, o resultado inquestionavelmente perde seu controle, ganhando caminhos próprios e desconhecidos.

“Mais que Especiais” apresenta um retrato de uma nova França. Assim como em “O Mundo de Gloria”, de Robert Guédiguian; “Notre Dame”, de Valérie Donzelli; “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, entre tantos outros que abordam questões sociais, este também quer transformações de uma estrutura antiquada e incompatível com os tempos modernos (ou talvez inapta a dividir espaço com o passado). Tudo aqui almeja a inclusão, união e naturalidade em olhar o outro sem os padronizar. Se cada um tem seu tempo, porque então não respeitar o deles? Será realmente que o mundo evoluiu? Dessa forma, entre trancos e barrancos, Bruno e Malik, lutam juntos em suas instituições diferentes, extremamente burocráticas (que não facilitam a “ajuda”), para “reformular” e “ressocializar” os jovens com casos considerados “super-complexos”. “Mais que Especiais” assume que é um filme pensado e arquitetado à audiência, que agrada a jovens e idosos, a “gregos e troianos”, e que recebeu 7 indicações ao Prêmio César 2020.

Trailer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *