Mãe + Mãe

Uma desorganização custosa

Por Vitor Velloso

O depósito das obras europeias segue sendo o terceyro mundo. Sem grandes alardes, “Mãe + Mãe” de Karole di Tommaso chega no Brasil mostrando a imensa capacidade do cinema nacional em ampliar a distribuição nas periferias da dependência industrial. 

Dito isso, o longa ao menos não esgarça as peçonhas dos países imperialistas nesse processo. Aqui o barato é intimista, buscando recortes de duas protagonistas que deveriam funcionar em uma química ímpar. Porém, as duas performances conseguem dar conta dos baratos dramáticos, mas sem funcionar com grandes êxitos de maneira conjunta. Individualmente as interpretações alcançam particularidades de suas personagens, buscando um distanciamento de um possível olhar unilateral diante da narrativa. Só que essa falta de concretude na articulação dessa relação, aliado à confusão generalizada da montagem, faz com que o projeto acabe menos eficiente que poderia. 

As cenas parecem funcionar em duas mãos distintas, a do alívio cômico, normalmente protagonizado pelo personagem “intruso” na narrativa, ou em uma suposta unidade dramática. Essa falta de organização diante de uma mise-en-scène que não descola das faces de nossas protagonistas, apenas expõe uma série de fragilidades em “Mãe + Mãe”. Algumas cenas verdadeiramente vergonhosas, que investem nessa questão cômica do roteiro, promovem um show de deslocamentos e perdas de norte. O longa parece perseguir um modelo industrial mais claro e vacila em diversas esquinas. Contudo, a honestidade no drama faz valer alguma coisa dos quase noventa minutos de projeção. Aqui, o espectador precisará de uma boa dose de boa vontade para mergulhar na questão basilar do projeto e embarcar em uma trajetória atrás de empatia. 

Do contrário, irá se irritar com cenas preguiçosas, uma construção preguiçosa de alguns personagens e eixos narrativos, um apelo meloso diante de uma cadência pouco convincente de um filme que necessita desse drama para funcionar. Nos primeiros minutos, a base formal da obra está implementada e será decisiva para a permanência, ou não, dos que decidirem se aventurar por aqui, sendo este mais um projeto que possivelmente encontrou dificuldade de distribuição exagerada em outros cantos e veio a aportar em terra brasileira, como de costume. É o típico longa do Estação Net que não encontrou momento oportuno e chega às telinhas. Do contrário, chegaria a ser exibido nas sessões da tarde, para a burguesia zonasulesca praticar seu italiano. 

A articulação de “Mãe + Mãe” é tão caótica, que em determinado momento é possível se perder na narrativa, esquecer o motivo da trama ter chegado em tal ponto. Isso porque o filme está tão preocupado em concretizar um ápice que possa arrancar algumas lágrimas e forçar algumas risadas desconcertadas das chanchadescas resoluções, que não consegue uma organização mínima para alavancar as próprias propostas. Não à toa, existe uma sensação de fragmentação da obra, pois essa abordagem não encontra o próprio caminho e passa a dialogar com diversas frentes de maneira simultânea. O que fica claro na quantidade de histórias paralelas que vão se acumulando, apenas burocratizando um recorte que poderia ser multifacetado sem ser polarizado neste ponto. 

Com isso, o filme italiano não consegue passar de um drama que busca algumas bases dramáticas para funcionar de maneira isolada em cenas específicas, mas não é capaz de criar uma unidade que garanta o funcionamento do todo, permanecendo em um platô de repetições de piadas e afins. Caso optasse por um desenvolvimento maior dos preconceitos e de uma vida que busca apenas seus próprios direitos, poderia ter a potência de debater uma problemática internacional a partir de pontos basilares presentes no projeto, sem recorrer a excessos de fragmentações e escapes humorísticos. Mais uma vez um projeto com potencial interessante é minado pela fragilidade de aproximar-se da indústria com um direcionamento vulgarizado das comédias românticas e melodramas, acaba conseguindo uma imposição por seu eixo primordial, não mais que isso. 

Seguiremos acreditando que o Brasil não será depósito de distribuições seccionadas por possuir um espaço de mercado mais seleto à disseminação de italianos, franceses e afins.

Trailer

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