Luzifer

Elegia demoníaca

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

Com o nome de Ulrich Seidl na produção, “Luzifer” gera uma grande curiosidade em Locarno e cria a expectativa de polêmicas se amontoando. Mas o filme de Peter Brunner não é um escândalo, e é mais sóbrio do que muita gente poderia imaginar. A narrativa explora algumas belas tomadas na Áustria e se desenvolve lentamente para criar um jogo de sedução, desejos, profanação e pecados. É uma espécie de “A Bruxa” com paciência para conceber o “Diabo” a partir de uma ideia distinta.

As montanhas guardam a obsessão e o fanatismo religioso, a crença na punição é o que define a relação entre mãe (Susanne Jensen) e Johannes (Franz Rogowski) aqui. Como um enigma pouco didático, o filme vai se moldando no poder de suas imagens e reforçando os objetos como símbolos ideológicos. As constantes orações que agradecem a sobriedade e a vida, são atravessadas pelo questionamento “Cadê o Diabo?”, “Onde está ele?”, a materialização dessa sedução é mais pragmática, mas não menos abstrata. Nada é muito claro em “Luzifer”, não sabemos se as forças demoníacas vem do buraco na montanha que carrega consigo o deslocamento físico de tudo ao redor, ainda que sempre visível e acima das pessoas, ou do avanço dos seres humanos na floresta, que desmatam e incomodam os moradores com drones e ofertas fajutas. Esse avanço da propriedade privada como um desmonte anti-natural é uma constante que se funde ao imaginário dessas forças demoníacas: a imagem da serpente que aparece em meio a névoa, também figura no braço de um dos homens, os drones aparecem saindo do buraco ainda que um plano mostre o controle remoto na mão dos uniformizados. E é nesses contrastes entre o mundo material e a crença no metafísico, que as coisas vão ficando cada vez mais carnais.

Por essa razão, quem esperava uma fórmula mais direta do cinema comercial, pode acabar se frustrando, mas a construção tem seus méritos. A maneira como existe um tipo de “maldição geográfica” que faz os personagens cederem aos seus desejos diante do imaginário santificado das castidades e privações. Esse conceito do “mal” é dúbio, como se a corrupção fosse inerente ao próprio ser humano, que tenta “dignificar” suas escolhas através do dogmatismo da fé. Porém, a pureza tem o limite nesse próprio isolamento. Não por acaso, o teor místico dos espaços vai se reforçando de acordo com o radicalismo das atitudes, o sumiço do pássaro é sinal do demônio, os capangas violentos da empresa são enviados do Diabo e o desejo sexual é fruto do pecado. Nessa mesma linha de raciocínio, o martírio da mãe possui a gratidão a Cristo e o sentimento de culpa, seja pelos erros anteriores ou a memória dos abusos constantes na infância. O sexo não é só uma espécie de manifestação do purgatório, é o pecado em sua imagem e semelhança.

A vaidade é o sintoma da santificação, origem primária da expulsão de Lúcifer do paraíso, a punição de quem apontava os pecados. E “Luzifer” transa as ideias cristãs com o avanço catastrófico dos humanos naquilo que parece imaculado. Se há interferência metafísica, a mediação é material. Não poderia ser diferente, já que até a autoflagelação surge de maneira irracional, criar um aparato de tortura que reflete uma coroa de espinhos e mergulhar repetidas vezes em um tanque de água não soa a atitude mais crente perante o cordeiro. O problema mental do protagonista apenas confunde a compreensão do espectador que tenta decifrar parte de suas falas, normalmente confusas, trocadas e diversas vezes ambíguas. Buscar na interpretação de Franz Rogowski alguma resposta, é ainda mais difícil, o ator é capaz de multidimensionar a mesma expressão dramática em camadas solúveis, não há uma clareza por trás de seus olhares e gestos. Susanne Jensen não fica para trás e entrega uma representação que incomoda o espectador pela série de possibilidades de um único berro, por exemplo, que não sabemos sua origem e motivo.

Se é na dialética e ambiguidades que “Luzifer” pavimenta a maior parte de seus méritos, é nela que o filme parece se perder em diversos momentos, sem saber exatamente qual ideia está desenvolvendo e para que direção. Ainda assim, o longa é capaz de tensionar as discussões para um desconfortável inferno entre as montanhas. Sem a representação barata de “Anticristo” e a cadência comercial de “A Bruxa”, o filme de Brunner vaga na imaginação e na materialidade com o mesmo rigor.

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