Longe do Paraíso

Faroeste pop

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília 2020

Orlando Senna é pop porque seus filmes transam com épocas, alterando o tempo pelo olhar modernista do contemporâneo. É um cineasta veterano, que viveu e sentiu na própria pele os desafios da transmutação do Cinema Brasileiro. Essa remodelação aconteceu pela invenção-vanguarda (vide “Iracema, Uma Transa Amazônica”, 1975, co-dirigido com Jorge Bodanzky), metaforizando a narrativa e o condicionamento do olhar do público. Essa raiz criativa também era influenciada e promulgada pela necessidade de um cinema mais urgente, em que a palavra representava a catarse do discurso. Em seu mais recente e esperado filme, “Longe do Paraíso” (2020), integrante da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano, Orlando quer corroborar a atmosfera ingênua do passado (a imagem evocando uma editada atemporalidade contemporânea).

“Longe do Paraíso”, contudo, trilha a estrada de terra da inocência, que aqui soa como uma pureza datada (nós inclusive podemos referenciar ao filme “Pureza” de Renato Barbieri, pois há semelhança com uma estética emocional). Produz-se uma obra que amalgama características e gatilhos comuns da telenovela, principalmente por causa dos diálogos de seus personagens, que artificializam  suas interpretações (quebrando o ritmo do que se vê e do que se verbaliza), por performances encenadas de uma datada experiência importada da nostalgia de uma terra interiorana se lei. O roteiro escolhe o caminho fácil, mais próximo à aceitação palatável do paraíso e sua Gênese (indicada explicitamente no início deste longa-metragem com “cara” de documentário).

Aqui, nós espectadores não conseguimos nos desvencilhar dos pensamentos recorrentes e referentes a “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Nossas sinapses também encontram “O Nome da Morte”, de Henrique Goldman, entre tantos outros filmes sobre pistoleiros (matadores de aluguel) rurais, que buscam a redenção final pelo confronto com o último resquício de moralidade afetiva. A trama também não se esquece da problematização social, ativando debates sobre a questão dos Sem Terra (à moda de “Era o Hotel Cambrigde”, de Eliane Caffé) e da marginalização (indivíduos à margem) que “perturbam a ordem” do “progresso capitalista”. “Longe do Paraíso” é um filme-também. De inclusão afirmativa contra o ódio estrutural sem causa entendida. A “vingança” facista, hipócrita e conservadora faz com que seres (sem importar se são “homens certos ou errados”) nasçam marcados com a sina da morte (e “à lei do cão”). “É preciso cortar o mal pela raiz”, argumenta-se.

O também daqui inclui imagens de arquivos para traçar um paralelo ficcional da “luta para valer” (contra a arrogância elegante dos ricos) daqueles que “pedem” um lugar para morar. “Longe do Paraíso” é um filme de cenas. De teatros casuais anti-naturalistas, mais forçados e pensados antes de interpretar, sensibilizando o roteiro  (extremamente didático e explicado) com exagerado sentimentalismo-romantismo, potencializada dramaticidade e reações mais histéricas (homenagem ao Cinema Novo de Glauber Rocha?). A imagem crua almeja imprimir o simbolismo imagético da estética orgânica da sobrevivência e não descarta o artifício da câmera lenta, para intensificar a reviravolta dramática, tampouco drones, câmeras subjetivas, zoom, músicas cantadas e “confrontos com Deus”.

Nas palavras de Sergei Eisenstein, em seu livro “O Sentido do Filme”, o cineasta soviético define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. Em “Longe do Paraíso” é o contrário. As interpretações são estereotipadas e artificiais pelo ofício de atuar, quase de obrigação trabalhista. Faltou a espontaneidade e tornar humano o personagem em cena. E não há só isso. Há também uma ressignificação caricata de gênero e identidade sexual.

Sim, mas todo e qualquer filme, por mais frágil que se apresente, consegue criar coisas boas. A cena do almoço é uma delas. A tentação dos “acordos morais”. “Longe do Paraíso” pode ser considerada uma parábola. Uma liturgia de violência histórica. Um faroeste caboclo de crítica social. Não só Orlando Senna é pop, como também é Hipster que nunca perde a jovialidade. Talvez tudo possa ser explicado por essa suposição. De traduzir uma época passada, reconfigurar um cinema novo e temperar atualidades pelos olhos de jovens iniciantes do agora. Se for assim, ainda que com ideias em construção de caracter, o longa-metragem, que não tem nada a ver com o “Longe do Paraíso” (2002), de Todd Haynes, tenha uma defesa do porquê foi criado e do porquê deve existir.

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