Felicidade Manipulada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019, “Little Joe” é um filme sensorial por conduzir seus espectadores a um universo de realismo-fantástico, surreal e projetado para ser possível, quase uma coloquial, pop e científica experiência existencial. É um estudo de caso.

Uma planta muda o humor das pessoas, as deixando mais felizes quando inspiram os pólens especiais. A narrativa, semelhante ao filme anterior do diretor Bong Joon-ho, “Okja”, com um que de “Suspiria”, de Dario Argento, é acentuada pelo desenho de som que potencializa a sinestesia com seus ruídos desconexos e potencializados, nos fazendo inferir os batuques e estridências a batidas de uma primitiva tribo de um perdido povo ancestral.

Nós somos adentrados em um futurista projeto que ressignifica o sentir de cada humano. Como uma droga despertada de um ser da natureza, modificado geneticamente em laboratório. O tema aborda um questão importante dos nossos dias atuais: o aumento da dificuldade em lidar com as próprias emoções. Mais e mais remédios são utilizados como confortáveis, rápidos e imediatos artifícios para retardar, remodelar e deturpar reações.

É inerente ao ser humano, ainda mas como indivíduo social, sua necessidade em ter que ser feliz. É quase uma padronizada obrigação de apagar quem se é para agradar o outro que também projeta outra aparência. Assim, vivemos em um mundo fake, não mais hipócrita, visto que muitos chegam a acreditar que realmente são outra pessoa e que conseguiram se enquadrar e participar do meio em que vivem.

“Little Joe” quer a “resiliência”, a “durabilidade” e a “proteção do frio e do calor”. “Mas não se deve cheirar demais a planta”, ensina. É um “benefício para a humanidade, essa inovação”. As ações são detalhistas, quase técnicas. As mudanças são visíveis, como do carinho do filho (que cria formigas) pela mãe a seu descaso total. É uma crítica ao mundo moderno. Há um medo de perigo iminente. A câmera passeia sem pressa neste cenário, lugar de experiências.

É um filme simbolista em que uma única ação (uma quebra de protocolo) desestrutura todo o equilíbrio arquitetado pela natureza. E ainda que a natureza seja manipulada, as “plantas seguem um propósito”. Uma essência auto-protetora que hormônio e ou vírus implantado não conseguirá. Não sei se é viajar muito na batatinha, mas a construção ambiente nos remete ao computador Hal 9000 de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.

“Little Joe”, como já foi dito, é uma experiência de sensações: a câmera espreita para nos mostrar os segredos do “humor e o balanço do ambiente”. Há aqui a construção do tempo. Uma suspensão fabular de vibrações. Seria uma loucura coletiva ou a mais pura ciência? Ou uma distorção da realidade? Ou apenas engenharia genética? “Precisa de calor, porque é sensível”, diz-se sobre a planta-mor.

É apresentada a teoria que o pólen quando chega ao cérebro transforma personalidades. E na revista Abstrato Nature, esta “cheirada” é um veneno para o corpo. É protagonizado pela atriz Emily Beecham (que parece muito com Nicole Kidman), e o que alguns enxergam como “nonsense”, outros uma análise antropológica sobre o status de nosso mundo atual.

Talvez esta seja a revolução das plantas, e da natureza em si, contra a figura do homem, que ano após ano destruiu o próprio habitat natural em prol de caprichos existenciais. Agora, nós, mais zumbis do que nunca, estamos em “patológica mutação”. O filme também pode ser outra metáfora: a do crescimento e amadurecimentos destes envolvidos, principalmente nos menores de idade, como um reflexo que deixa feliz e que cada um tenta convencer o outro a se unir. É quem tem o maior poder de persuasão versus o mais vulnerável, vide “O Jovem Ahmed”, dos Irmãos Dardenne, em competição aqui, que limita a consciência e desafia a ordem social.

“Little Joe” aceita a zona de conforto para que assim possa espalhar a palavra. Entrar na caixa. Padronizar-se. Sim, já estamos assim. Essa estranheza fílmica, acompanhada dos batuques primitivos, cria no espectador um misto de sonambulismo acordado, que pode chegar a questionar a própria existência de querer uma felicidade permanente e ou de se encaminhar ao médico para solicitar um inibidor de humor. E ainda que conselho não seja bom, uma pergunta: quem precisa de plantas quando se tem os filmes?

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