Liberté

Uma orgânica libertinagem sofisticada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Adentrar nas obras do realizador espanhol Albert Serra (de “A Morte de Luis XIV”) é embarcar em uma experiência de tempo e espaço por um modernismo barroco, que contrasta, confunde e subverte o olhar já condicionado. Há um primitivismo estético que conduz o espectador pelas matas do desconhecido e do propósito criativo do tédio, importando uma época aristocrática da realeza. Mas aqui sua organicidade desconstrói moralidades. A floresta, um bosque de eucaliptos representa a metáfora da liberdade, de desnudar máscaras e se permitir vivenciar a plenitude do desejo.

Libertário, humanista e verdadeiro com as próprias idiossincrasias fetichistas das profundidades da alma, que atravessam o subconsciente, o tornando palpável e decididamente inquestionável. É a luxúria sem a definição da sociedade, em que indivíduos enquanto no habitat natural tornam-se animais, a característica principal essencial de início de todo e qualquer ser humano.

Seu mais recente filme, “Liberté”, exibido na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes 2019, consegue captar a essência humana da selvageria casual de momentos furtivos. Nós somos inseridos na maquinaria da lubricidade, desprovida de continuidade. Ali, esses seres estão à deriva, impondo cúmplices idiossincrasias, que no todo se perde pela única e impulsiva sensação de prazer, ora estranha, ora voyeurista, como se representasse a verdade presente no âmago do querer. É uma análise antropológica do comportamento humano em condições de conforto existencial e sem os olhares julgadores da sociedade, que, por sua vez, os integra, oprime, limita, transmuta e mata o que se é.

O longa-metragem, em um primeiro momento, pode sugerir ser um filme de “pegação”, à moda de um “Um Estranho no Lago”, Alain Guiraudie e ou “Vento Seco”, de Daniel Nolasco (exibido no Festival de Berlim 2020), mas em poucos minutos de seu início já percebemos sua profundidade filosófica em camadas desconstruídas da própria relação sexual. É também uma experiência retórica, visto que as perguntas inferidas “Por que nos trepamos?” e “De onde vem o desejo?” pululam interruptamente em nossas aguçadas sinapses, criando assim estímulos físicos que vão da “normalidade” do tesão até o desconforto do confronto, pela organicidade dos corpos peludos e gordos em “obscuros conhecimentos”.

“Liberté” traduz-se como bucólico e palpável por personificar e reenquadrar o passado no presente. Para “continuar consciente” em planos de câmera estática e verborrágico discurso existencialista. Como uma peça de teatro, encenada sexual e propositalmente com o elemento caseiro, a fim de imprimir ainda mais veracidade de vida. Espreitamos a vida dessas personagens e nos tornamos o que eles não mais ensaiam em ser. “A libertinagem é difícil aqui”, diz-se enquanto o “tempo está correndo” e que é “preciso ajudar a Prússia”.

Os planos contemplativos atiçam ainda mais a transformação de humanos “animais” em selvagens. É a fálica liberdade liberta de rótulos, algemas e regras. Há um que de “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, de Pier Paolo Pasolini, por explicitar fetiches, perversões, filias, “golden shower” e “banhos de leite”, porém aqui há no olhar fundo uma expressão de pureza. Uma inocência perdida de uma criança redescobrindo o brinquedo perdido ou posto de lado, algo como um “Toy Story” versão bem adulta, por lidar com um “crime que excita”, na época de 1774, por um grupo de libertinos franceses que fogem do governo conservador de Luís XV. Este pode ser um filme-continuação.

“Liberté” expurga a hipocrisia por uma noite, transgredindo moralidades, costumes, aparências. E define a ideia da xepa, que tanto pode ser o “resto do alimento não servido” e/ou a “comida servida em um quartel”, para assim redimensionar o significado de que no final, quase no fim da “festa”, todos ali serão aptos a atender os desejos, tudo devido ao tempo, que, prestes a acabar, baixa a “bola” e a exigência. Assim, até o “gordinho” excluído tem sua “chance”. Eles buscam a expressão da volúpia. A submissão ativa e passiva. Um sadomasoquismo com limitações puritanas, ainda que no lugar que estão seja a entrada aos “portões do inferno”. Um “parque de diversões” que expande conceitos, autoridades, crenças e novas “leis”, que servirão de modelos às “ovelhas” do povo. A obra é uma ode ao que o ser humano é em seu subconsciente ativado, que, pela política, argumentação e estratégia sofisticada, busca o convencimento de que a liberação sexual é o progresso e um novo caminho a ser seguido.

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