Lav Diaz: Um Norte, Sul, Leste e Oeste

A vida em plena realidade

Por Fabricio Duque

A cada nova obra do cineasta filipino Lav Diaz, nós, espectadores em um estranho mundo moderno e acelerado, somos despertados a repensar a verdadeira essência do cinema, esta sétima arte que se configura por imagens em movimento. Que para François Truffaut é “o prazer dos olhos”. E para Sergei Eisenstein é “a recriação do processo da vida”. E para Walter Benjamin está “na sua faculdade característica de exprimir, por meios naturais e com uma incomparável força de persuasão, a dimensão do fantástico, do miraculoso e do sobrenatural”. O diretor em questão aqui, conhecido por seus longuíssimos longas-metragens, que chegam à duração de onze horas, como é caso de “Evolução de Uma Família Filipina”, sofre o preconceito depreciativo de “repulsão” em suas obras por aqueles que já o definem como tedioso sem até mesmo assistir sua filmografia. Não mesmo. Definitivamente o boring não pode ser utilizado como argumento de exclusão.

Sim, é longo, porque se precisa do tempo real da máxima contemplação-sensorial de micro- ações (esperando para se completarem) e sentimentos personificados dos personagens a fim de imergir completamente o espectador na história objetivada. Sim, é longo, porque a tendência atual do cinema é construir narrativas mais ágeis, de hiperatividade videoclipe, de cortes em “piscadas”, tendo a televisão como “reformadora” da “pressa” e não da “paciência”. É de se estranhar que maratonas de seriados, “roubando” as palavras de Rodrigo Fonseca, e inserindo que sagas como “O Senhor dos Anéis” “levam muito mais horas que seus filmes”.

O que este cineasta objetiva apresentar é um cinema com tempo real de cinema. Sem edições rápidas, como um grande “Big brother” visual de uma temporalidade observada, congelando-se o tempo com o intuito de “dissecá-lo”, principalmente pela memória os acontecimentos históricos da República das Filipinas. Há uma descomunal diferença entre a ideologia da autoralidade e pretensão. “Meu cinema é livre, não é longo. Não quero comprometer minha alma dentro da indústria do cinema, tampouco virar parte de um negócio. Quero fazer cinema do meu jeito. Meu processo de criação flui enquanto filmo, sempre uma única tomada (não repito planos). Valorizo o espaço físico como um elemento importante. A natureza é um grande ator em meu cinema, que acredito ser parte do ciclo da vida, tentando entender a vida e tentando espelhá-la em meu trabalho que simplifica o cinema, um tempo de reflexão direto e sem adornos, e sempre em preto-e-branco”, diz o diretor filipino Lav, que busca explicar suas escolhas cinematográficas.

Em “Hele Sa Hiwagang Hapis – A Lullaby To The Sorrowful Mystery”, que tem quatrocentos e oitenta e dois minutos, que pode ser traduzido em oito horas e dois minutos, e integrou a seleção da competição oficial do Festival de Berlim 2016 (uma decisão corajosa), há reverberação de inferências à cinematografia de outros cineastas como Bela Tarr (“um dos heróis”, disse Lav na coletiva de imprensa), Andrei Tarkovsky, Apichapong Weerasethakul, John Ford, Roberto Rosselini, Serguei Eisenstein. Sem dúvidas é filme de cinéfilo para cinéfilo, encantando com a fotografia panorâmica de “high” contraste prateado de luzes e sombras. É uma epopeia épica- histórica-realista-alegórica do passado da Filipinas, que foi “emancipada da Espanha”. O longa- metragem é uma experiência de poesia visual estética, como a cena que se mata o músico, rouba-se o violão e queima a “felicidade”, cujo fogo é recorrente. O purgatório. O inferno.

Lav Diaz é um diretor que não se preocupa em “podar” sua essência para ser “vendável”, tampouco em dar chances aos não atores que traduzem um amadorismo proposital em contraste com os atores profissionais que imprimem precisão absoluta das cenas, mesmo quando os socos e pontapés são apresentados como anti-naturalistas. Há uma encenação ensaiada. Os “sobreviventes” perdidos, que queimam de febre, retornam contrariamente a Caverna de Platão, encontram tipos em um mundo diferente, pagam violência com violência (na mesma moeda), humilham uns aos outros (“Violentar uma mulher, Coronel? É esta sua revolução?”), recorrem a prostitutas-travestis que “atendem” poderosos.

“Revolução não é queimar o país e causar o caos”, “ensina”. “Cuba é seu melhor refúgio, homem de consequência?”, cria-se o embate político-perspicaz-inteligente entre o utópico-idealista- revolucionário-desinformado (este acreditando na incondicional na invencibilidade) e o realista- racional-diplomático com projeção arquitetada, dados estatísticos e entendendo as fragilidades de seu oponente). Lav recorre à questão da índole, inserindo até a ilusão da invenção da Cinematografia pelos Irmãos Lumière e “arte que ensina a liberdade”. “O silêncio é negar a verdade”, diz-se.

Também em “Norte, O Fim da História”, toda a estrutura é corroborada. É uma parábola, uma fábula existencialista, que mostra a mensagem que na vida não há apenas uma solução e que a decisão pode ser influenciada pela condição maniqueísta de cada um. É um longa-metragem, com estrutura de romance-novela, sinestésico, porque insere o espectador na abordagem concretista, estimulando nossos questionamentos de moralidade, ética e da pergunta retórica “o que você faria?”. Prende a quem assiste principalmente pela edição imagética, orgânica, humanista, midiática, de verborragia analítica e de silêncios personificados. Foi selecionado Este filme foi selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2013.

Foi a apresentação oficial das Filipinas para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2015. Ganhou o prêmio de Melhor Filme no 1o Festival de Cinema de Pancevo, em 2014, na Sérvia. A declaração do júri relata: “O filme filipino expõe a influência que as tensões não resolvidas e catastróficas das relações e processos sociais modernos têm sobre o indivíduo e seus sentimentos de ética, justiça e responsabilidade. O diretor Lav Diaz confronta as questões submetidas por Dostoievski em “Crime e Castigo”, com conceitos ideológicos contemporâneos e diferentes. Usando uma linguagem específica e original (takes de longa distância, atuação autêntica e quase documental, uma narrativa sugestiva), “Norte” consegue contar uma história épica e chocante, que denuncia a civilização contemporânea”.

O Cinema Filipino distancia-se do estilo cinematográfico comercial. Escolhe-se o alternativo, o independente. A experimentação pulula em cada mudança de cena, enquadramento, câmera, enfim, em toda parte técnica, em interpretação e narrativa. O diretor privilegia planos longos, respeitando o tempo narrado. Objetiva-se o dia-a-dia real, com ações naturais, aguardando e esperando. Ora se comportando como personagem, ora como observadora, deixando os personagens, quase como borrões de imagem, por causa dos posicionamentos: de frente ao sol. Há silêncios, não havendo a necessidade de utilizar o recurso da música para compor o trama apresentada. Com isso, o espectador absorve e questiona o valor do sentimento, com sutilezas aprofundadas das interpretações. Há a busca do amadorismo quando realiza a interação com a metalinguagem. Comporta-se como um Dogma 95 (manifesto dinamarquês de Lars von Trier e Thomas Vinterberg para “salvar o cinema”), já que a iluminação é natural, muitas vezes escura, com sombras, com reflexo do fogo ou da luz da lanterna dos mineradores. É um técnico e amador ensaio técnico que transgride a sensação de documentário.

Em “A Mulher Que Se Foi”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza 2016 e exibido no Festival do Rio do mesmo ano, o diretor segue com sua veia artística de prolongar o tempo (desenvolvido como uma pausa editada) em planos longos, estáticos e sem cortes pela liberdade contemplativa da vida, mesmo reduzindo drasticamente sua duração para apenas quase quatro horas. Foi baseado na obra de “God Sees the Truth, But Waits”, de Leo Tolstoy, também reitera a ambientação política contando a história (“Não um conto de fadas”) de um passado que se torna “presente” aos olhos do espectador (“olhados” pela polícia uma aula metafórica de “pretérito e futuro”).

Em 1997, a pena de Horacia Somorostro (a atriz impecável e irretocável Charo Santos-Concio), imputada injustamente durante trinta anos (já acostumados “lá dentro” no Instituto de Correção Para Mulheres, chega a seu fim (“O que fazer lá fora? Liberdade? Deixar a família daqui?”). Não há clichês, gatilhos comuns, orgulhos em “A Mulher Que Se Foi”. Apenas o realismo sensível de uma câmera subjetiva, que capta a sinestesia da dor deles e de seus silêncios, o embate questionador religioso, o ódio, as conversas com tom confessionário-terapêutico, os barulhos turísticos da cidade, a intolerância às diferenças. Tudo que quer é a “confissão” para acalentar a ira construída. “Somewhere… not over the rainbow”, a performance. O longa-metragem é uma livre representação, uma cirurgia que tece e estuda o caso comportamental do ser-humano. Uma obra-de-arte de filosofia direta, articulada, temporal, e com domínio máximo da direção.

Definitivamente, Lav Diaz é um gênio. Não se pode questionar. E embarcar em suas obras, uma experiência antropológica, quiça de auto-ajuda aos mais embrutecidos seres humanos. Nós espectadores somos lembrados do tempo da vida. Da possibilidade de existir. Da calma transmutada na arte. Dos silêncios que causam mais barulhentos desconfortos, talvez pela “chance presente” de conexão com nossa própria solidão. Em seus filmes não podemos fugir de nós mesmos. É a vida em plena realidade. Assombrada, assaltada, cruel e esperançosa. Tudo ao mesmo tempo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *