Ficha Técnica

Direção: Lav Diaz
Elenco: Pen Medina, Angel Aquino, Joel Torre, Ronnie Lazaro, Lui Manansala, Dido dela Paz e Banaue Miclat
Mini-DV
Duração: 643 minutos
País: Filipinas
Ano: 2004
COTAÇÃO: MUITO BOM

Apresentação

Conhecer o Cinema Filipino necessita-se de tempo. Há a preparação prévia do espectador. Nesse filme em questão, a duração é de 643 minutos, traduzidos em 10 horas e 43 minutos, divididos em 12 fitas mini-dv (mídia digital). A maratona começou às dez horas da manhã, no CCBB RJ, terminando 21 horas e 45 minutos, com intervalo de 40 minutos para almoço e 20 para o lanche, totalizando uma hora (sem exceder o tempo). Os organizadores não atrasaram a exibição, possibilitando uma viagem cinematográfica única, sem percalços e sem irritabilidades. Lav Diaz é o diretor desta epopéia. Na mostra, há outros dois filmes. “Melancolia”, por exemplo, possui 441 minutos. É o cineasta dos épicos.

A opinião

O Cinema Filipino distancia-se do estilo cinematográfico comercial. Escolhe-se o alternativo, o independente. A experimentação pulula em cada mudança de cena, enquadramento, camera, enfim, em toda parte técnica, em interpretação e narrativa. O diretor privilegia planos longos, respeitando o tempo narrado. Objetiva-se o dia-a-dia real, com ações naturais. A camera aguarda, espera. Ora comportando-se como personagem, ora como observadora, deixando os personagens longes, quase como borrões de imagem, por causa do posicionamento da camera: de frente ao sol.

Há silêncios, não havendo a necessidade de utilizar o recurso da música para compor o trama apresentada. Com isso, o espectador absorve e questiona o valor do sentimento, com sutilezas aprofundadas das interpretações. Há a busca do amadorismo quando realiza a interação metalinguística. Comporta-se como um DOGMA 95, já que a iluminação é natural, muitas vezes escura, com sombras, com reflexo do fogo ou da luz da lanterna dos mineradores.

A saga da pobre família Gallardo, que vive em uma comunidade rural das filipinas. Sua trajetória serve como metáfora da história do país durante a imposição da lei marcial pelo presidente Ferdinand Marcos e o crescimento da atividade guerrilheira, entre 1971 e 1987. Enquanto as economias vão acabando, a família Gallardo, lentamente, se separa. O filme começou a ser feito em 1993, sendo realizado durante dez anos até ficar pronto.

A parte inicial da família vai aos guerrilheiros, que intercala imagens de arquivo de guerra contra o imperialismo filipino. Há digressões em saltos de narrativa, que explicam os integrantes da família. Entre sonhos, epifanias, realidades, futuros e passados, conta-se a história de uma dominação ditatorial. A trama não se apresenta de forma linear.

Demora-se um tempo para que se possa concatenar e juntar as peças de tudo. Leia-se algumas horas. Mas a lentidão é válida e extremamente necessária para o desenrolar de todas as questões. São várias histórias dentro de histórias que se juntam. Uma delas é de Ray, o bebê das formigas, encontrado “supostamente” em Manila. Outra é a mãe que não aceita a filha. “Ela trouxe má sorte, nunca poderei perdoá-la”, ela diz.

Os personagens são retratados em seus crescimentos, erros e acertos. Há a humanização deles, os descrevendo como ingênuos naturais. Sofrem as mazelas da crueldade do mundo, das fofocas dos membros da própria comunidade e precisam lutar pelo pedaço de terra e trabalho, dentro de uma sociedade maior que dita as regras, favorecendo os próprios interesses. É a lei dos mais fortes. Mostrando que o trabalho permanece presente. Sem ele não se vive.

O rádio é um elemento constante. Por ele passam-se todas as histórias. Uns ouvem, outros participam. “400 pesos”, é o seu preço. Os programas deste veículo abordam desejos, anseios, fornecendo a percepção que os problemas são iguais em qualquer família. A novela dramatiza a vida real. A conversa é quase narrada, brega, clichê, folhetinesca. É uma crítica a banalização do que se acontece no cotidiano. Entre uma escutada e outra, diz-se “O alho está ficando caro demais”. Há o realismo conhecido, que busca a fantasia para alienar-se. “Qual o problema em ouvir histórias”, diz-se sobre a imposição do “possível” certo.

É um filme político, que utiliza a metáfora para abrandar e folhear o que se quer transmitir. A cegueira de um, a ‘mudice’ de outro, o patriarca autoritário, a prisão real, as regras carcerárias, a busca por um mundo melhor e de novo o rádio. Há também a guerra, a violência, a obediência e a ordem. As vítimas e os sobreviventes não visualizam o futuro. As consequências: mortos e feridos. Em contra ponto, há a simplicidade das crianças brincando na praia e pulando corda, vivenciando o que se pode viver. Há o existencialismo sobre a vida de um inseto. Há referências que respeitam quem está do outro lado da tela.

Há profundidade nos personagens, que sofrem, expressando raiva e descontentamento de uma vida sem perspectiva. Expurga-se cortando madeiro, por exemplo. Não parece ficção. Os diálogos da cena entre a neta e a sua avó são reais, naturais, sem encenação. Eles acontecem por si só, como na própria vida, que segue. A colheita, a lama, lavrar a terra. Trabalho rural. “Não são burros, apenas cresceram em um mundo diferente”, diz-se sobre jovens que não pensam como os mais velhos. De novo, repito, a construção da narrativa fornece realismo aos diálogos. Há cenas que acontecem. A dança e o canto em volta da fogueira. Há mineração e escavação. O longa passeia por todos os elementos épicos e destrincha formas de sobrevivência filipina.

O objetivo, questionado no próprio filme, é redescobrir o que é ser filipino. Quebrar os estereótipos. Há interação com um diretor de cinema fictício. Há making of do programa de rádio. Há experimentação de imagem em imagem. “Somos todos filipinos”, diz-se em cenas de revoltas à ditadura, em meio a crises existenciais, culpas e resignações sofridas.

O recomeço. Espera-se lentamente a vida voltar ao normal. “Os tempos mudaram. Ficaram mais escuros”, sobre a metafísico do escurecimento do dia às dezoito horas. Infere-se o lado sombrio do ser humano, cada vez mais embrutecido, em meio a cenas simétricas de imagens. Recomeçar vendendo pudim de soja. Há epifanias silenciosas. Há catarses melancólicas. Há a explicação explícita da proibição dos filmes e do Festival de Cinema do ditador. “Uma ditadura cinematográfica. Do roteiro à narrativa. O filme do Scorsese ‘Última tentação de Cristo’, foi proibida também”. Busca-se a “liberdade dos cineastas”. Há uma cena que pode ser considerada como a morte mais longa da história do cinema. Tudo pelo fim da militarização.

A vida continua. A espera também. As mesmas ações. O mesmo trabalho. É um filme de imagens, que retrata uma época, rica em seu material. “Perdas acontecem. Segue-se em frente da mesma forma. Muda-se uma coisa ou outra, mas é quase tudo igual”, finaliza-se. Vale muito a pena ser visto. É um encontro sensorial em todos os aspectos. Recomendo.

O Diretor

Lavrente Indico Diaz é um premiado cineasta independente que nasceu em 30 de dezembro de 1958. Ele atua em diversas funções concomitantemente, como diretor, roteirista, produtor, editor, diretor de fotografia, poeta, compositor, ator e diretor de arte. É especialmente conhecido pelo comprimento de seus filmes, alguns dos quais chegam a durar até onze horas. Após trabalhar durante anos para a principal empresa produtora das Filipinas, a Regal Films, comandada por Mother Lily, Lav dirigiu em 2001 Batang West Side , divisor de águas em sua carreira e marco do cinema independente filipino. O filme foi o primeiro de sua trilogia Filipina, completada por Evolução de uma Família Filipina e Heremias . Seus dois últimos longas, também épicos de longa duração, participaram, com sucesso, do Festival de Veneza. O primeiro, Death in the Land of Encantos , ganhou menção honrosa na mostra Orizzonti em 2007, e Melancolia conquistou o prêmio principal no ano seguinte. Por toda sua trajetória, Lav é considerado o pai ideológico do cinema independente filipino.

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