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Laços

Envelheceremos juntos

Por Pedro Mesquita

Festa do Cinema Italiano 2022

Laços

Sabemos que um dos principais alicerces do cinema dito clássico, no que diz respeito à relação entre o espectador e o filme, é a identificação. Com isso queremos dizer que, dado o cumprimento de uma série de pré-requisitos — o filme ser tecnicamente bem acabado a fim de proporcionar um efeito ilusionista; a trama do filme ser suficientemente plausível —, o espectador do cinema se projeta no interior daquele espaço diegético, vivendo o drama de determinada personagem como se ele fosse o seu.

Um certo grau de realismo, via de regra, é pré-requisito para o processo de identificação. Tomemos como exemplo dois filmes que, tratando das adversidades que o divórcio causa no ambiente familiar, têm uma trama que se assemelha à de “Laços” (Daniele Luchetti): “A Lula e a Baleia” (2005) e História de um Casamento (2019), ambos dirigidos pelo realizador norte-americano Noah Baumbach. Por mais que não possamos atribuir aos procedimentos estéticos do filme o predicado do classicismo, a observação acima ainda vale: os filmes detém um certo grau de realismo psicológico, de modo a favorecer esse processo por meio do qual o espectador “entra” no filme, toma partido de uma personagem ou de outra, vive com elas as suas dores etc.

Isso não acontece em “Laços”. O filme de Daniele Luchetti toma como incidente incitante um evento que não ganha muitas explicações: em meio a um núcleo familiar aparentemente saudável e feliz, o marido (e pai de duas crianças) Aldo (Luigi Lo Cascio, Silvio Orlando) decide subitamente que aquela vida não lhe cabe mais. O filme, para ser justo, prepara o terreno para que essa situação aconteça: ao início da sessão, vemo-lo cheio de angústia confessar à esposa, Vanda (Alba Rohrwacher), que havia sido um marido infiel, ao que ela o expulsa de casa. Aqui, porém, verificamos como “Laços” busca dramatizar essas coisas diferentemente: Aldo se afasta da família com muita facilidade. Eis, portanto, uma personagem cuja aparente falta de humanidade parece constituir um desafio à questão da identificação que colocamos anteriormente. O mesmo pode ser dito de Vanda, cujos desequilíbrios emocionais acabam prejudicando aqueles à sua volta (especialmente os filhos, que têm de assistir ao declínio mental da mãe mediante o divórcio).

O casamento, portanto, não é um conto de fadas em “Laços”. Façamos então o favor de aproximá-lo a um outro filme, cuja comparação fará um pouco mais de sentido: “Nós Não Envelheceremos Juntos” (1972), de Maurice Pialat. O filme de Pialat conta a história de um casal que, assim como Aldo e Vanda, mantém entre si uma existência infeliz. O tema que ambos filmes compartilham entre si é a manutenção a fórceps de uma união visivelmente fadada ao fracasso (embora as personagens em si não o enxerguem, e esse ciclo vicioso do qual elas não conseguem sair é de onde o filme vai retirar o seu drama). No filme de Pialat, acompanhamos de perto a relação e a dolorosa série de brigas e reconciliações que vem com ela; já no filme de Luchetti, a vivência do cotidiano do casal não se dá com tanta proximidade assim, porque o diretor procede por elipses: percorremos um grande intervalo de tempo graças a saltos temporais que o filme dá, e o desgaste que observamos entre Aldo e Vanda na terceira idade permite inferir que os pedaços elididos foram igualmente desprazerosos.

A escolha por uma estrutura não linear, aliás, não parece particularmente bem sucedida; acontece que o ritmo de determinadas sequências do filme se quebra graças a esses saltos — que parecem arbitrários ao invés de orgânicos; parecem mais um mero fetiche do realizador que um artifício que trabalha em prol da narrativa —, o que seria talvez mitigado por uma ordenação linear dos acontecimentos.

“Laços” é, enfim, um filme cuja mediocridade podemos reportar ao estilo com que o argumento é transformado em imagens. Pois, por mais que o argumento em si seja perfeitamente funcional — firmemente ancorado em arquétipos do gênero; lançando mão de intrigantes esquemas de pista e recompensa, como o plot twist do ato final… —, o que enfraquece a experiência são as questões de ordem formal. Para citar outro exemplo além da montagem, notemos a insistência quase absoluta na encenação em planos fechados, que enquadram e focalizam uma ação de cada vez, cuja falta de criatividade só não podemos chamar de televisiva porque mesmo as séries televisivas recentes já souberam superar esse estilo exageradamente analítico de decupagem. É por essas e outras escolhas que o filme de Luchetti, de tanto jogar seguro, nunca realmente nos surpreende.

2 Nota do Crítico 5 1

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