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La Frontera

A gênese e a morte

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Gramado 2020

Um sopro de esperança na grade do Festival de Gramado. O longa colombiano “La Frontera” exibido na noite do segundo dia da programação, possui o mérito de conceber o subdesenvolvimento como uma eutanásia da esperança em meio ao âmbito político, tão próprio à suas necessidades, mas tão distante.

A direção é assinada por David David e o projeto é compreensível em suas múltiplas faces, concebe uma exposição da problemática da subsistência em região fronteiriça, porém se perde no velho axioma do norte necessário ao material que possui em mãos. Onde suas maiores forças surgem, junto à ela uma pandemia de vínculos frágeis em seus símbolos. O louvor é natimorto, a caixa de ferramentas torna-se caixão, o que deveria assegurar a manutenção é a procissão dos cadáveres ao mundo dos sonhos. O supérfluo vira tom jocoso na personagem que cruza a narrativa. Todos vão, em algum momento. 

Referência tardia de um materialismo mambembe, de uma política excludente e de um capitalismo que não se concretizou, “La Frontera” triunfa em conquistar a empatia das relações ali expostas, primordialmente na gênese do pêndulo entre a esperança e o desespero. O subdesenvolvimento e subsistência ganham forma aqui, com a violência batendo a porta todos os dias, a ameaça à vida é uma constante que se perde a conta. Não à toa, não se sabe o período de gestação, pois o tempo em meio à desgraça é luxo da que nos pariu. Pátria em consonância dialética. Porém, determinados recursos narrativos que o filme passa a utilizar, a fim de ampliar seu alcance dramático, se tornam muletas ágeis para sintetizar seus problemas. 

A personagem vinda da cidade não para de falar um minuto, é uma aberração em meio à calmaria, ingênua mas não inocente. Há de se compreender a troca imediata entre as mulheres, os que vão, não voltam. Na cena mais direta do longa, onde presenciamos o brilho nos olhos esvaindo-se, o nascimento próximo ao natal, em clara diretriz cristã, expõe que essa resolução, não é permitida. E jogo formal que David se propõe, é bastante versátil.

Em determinados momentos há o exercício antropológico clássico, a câmera fixa seu posicionamento para que acompanhemos de perto, sem incômodo, o dia-a-dia desse subdesenvolvimento. Há um rigor nos enquadramentos que tentam emular uma realidade interna, onde essa unidade é quebrada apenas com o rádio. A montagem ganha seu tempo de respiro para conseguir alavancar os momentos, mas acaba apelando para fades dramáticos, tornando a proposta um misto de situações pragmáticas, burocráticas, ou orgânicas. E essa falta de consciência para se estruturar diante de seu problema, torna a pesar com a introdução da falante, que não emula um novo ambiente, apenas irrompe com ele. 

Nos momentos oníricos, não há propriamente a fantasia, sim o sonho, e como já dizia Mano Brown “…as vezes sonhar dói”. Nesse sentido, “La Frontera” é muito bem resolvido com sua proposta, onde não recorre aos berros de um “realismo fantástico”, pois negligencia o que pondera ambos, assume sua forma como algo dado pela circunstância. Fora o sonho, há a miséria. E nesse âmbito o filme consegue estruturar bem sua cadência entre essa fixação pela realidade e uma verve lúdica que surge tanto nos sonhos, quanto na linguagem, que transita para ilustrações convincentes de uma proto calma perante ao caos. 

Chamar o filme de “alienado” pode não ser o tom mais honesto para concretizar uma crítica, pois o longa se despe de qualquer necessidade da constituição moral e política que ocorre na sociedade, quando o faz é interpelado pelo rádio. Mas está claro que não há necessariamente um projeto de olhar crítico para o conceito de fronteira política diante daquela realidade. Isso porque nos instantes finais, “La Frontera” apela para um romantismo típico do pensamento burguês, uma fuga geográfica seguida de uma música colocada na rádio. E aqui, grande parte do impacto dos minutos finais vai por água abaixo, pois a construção da obra não nos leva a crer nessa resolução simplória dada ali. 

Contudo, o filme colombiano é capaz de destruir a praticidade da longínqua representação pragmática do subdesenvolvimento e institucionaliza o problema à América Latina, não apenas há uma nação e melhor de tudo, dá nome e diretriz para esses inimigos.

Trailer

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