King Richard: Criando Campeãs

A possibilidade de um Oscar

Por Vitor Velloso

King Richard: Criando Campeãs

O filme sobre o pai de Serena Williams e Venus Williams possui todos os traços de uma biografia esportiva norte-americana, retratando a dificuldade de crescer em um esporte dominado pelas classes mais abastadas e a superação dos obstáculos para conseguir realizar seus sonhos. O que difere das demais obras de “King Richard: Criando Campeãs” , dirigido por Reinaldo Marcus Green, é a grande campanha de marketing em torno da interpretação central de Will Smith para vencer o Oscar. Neste sentido, parte da obra se direciona nos dramas particulares do personagem, visando uma maior atenção para os ombros curvados e o olhar marejado, quase sempre cansado, típico das biografias esportivas. Tal fórmula acaba desgastando a boa narrativa que o projeto possui em mãos, já que a constância que retornamos para a unidimensionalidade dramática, atravessa o ritmo de maneira negativa.

Da mesma forma que os estereótipos estabelecidos pelo subgênero podem catapultar algumas cenas, também são capazes de permitir que boas relações subjetivas sejam desperdiçadas pela proposta formulaica. Não por acaso “King Richard: Criando Campeãs ” sofre gravemente com o lento ritmo e a sensação de repetição. Por exemplo, a cena em que Richard Williams (Will Smith) e Rick Macci (Jon Bernthal) conversam sobre o ritmo do treinamento, diante das duas quadras ocupadas pelas atletas, possui uma reiteração de exigências já anteriormente abordadas, que retornam para demonstrar a personalidade do protagonista, sua teimosia e tentativa de manipulação integral. Contudo, o excesso de cenas isoladas que precisam reforçar tais traços, demonstra uma profunda insegurança narrativa e uma zona de conforto na construção dos conflitos internos. Dessa maneira, a própria resolução das sequências fica comprometida pelo embricamento do que a obra se propõe e ao que ela está servindo, neste caso, a biografia de Richard em contraposição com a necessidade de enquadrar Smith para fins de premiação.

Além disso, as inúmeras investidas na representação da explosão do personagem, sem que haja uma consequência direta, reflete a fragilidade da contextualização, neste caso a utilização de uma localidade de forma unilateral. Com o fim de expor a violência de Compton, bairro onde residem os personagens, e o racismo da sociedade norte-americana, o longa procura acontecimentos que atravessem a narrativa e sejam capazes de gerar situações expositivas, capazes de ilustrar uma realidade. Surpreendentemente, aqui reside uma proeza de “King Richard: Criando Campeãs ”, demonstrar que o orgulho moral envolvido em torno da idealização dos conflitos cotidianos, acabam trazendo uma série de problemas para a família e acaba demonstrando alguma maturidade na não-idealização dos personagens reais. Por certo, parte dos espectadores ao perceberem que Serena e Venus Williams assinam a produção, poderiam esperar uma caracterização que estivesse de acordo com a heroificação de Richard, o que não ocorre, seja pelas decisões de Reinaldo Marcus Green ou pelo roteiro de Zack Bailyn, que provoca alguns momentos mais acentuados. Porém, a montagem de Pamela Martin (“Pequena Miss Sunshine”, de 2006 e o “Vencedor”, de 2010), acostumada a trabalhar com adaptações de histórias reais que conciliam os problemas dramáticos com os estereótipos comuns ao gênero, acaba comprometendo a estrutura geral, já que tudo funciona no automático. Como também o trabalho de Robert Elswit, que mesmo com um currículo que conta com “Sangue Negro” (2007) e “Embriagado de Amor” (2002), está engessado pela obviedade do funcionamento formal.

Por fim, “King Richard: Criando Campeãs ” se demonstra genérico e com pouca consistência diante do que é apresentado desde o início da projeção: oscilando no ritmo, perdendo a narrativa para a necessidade de se debruçar no possível Oscar de Will Smith e na obviedade do encaminhamento dramático. Inevitavelmente fica longe do que Serena e Venus mereciam como uma representação do passado que as formou enquanto atletas, sem precisar cair na mesmice da superação pela moral familiar que deve estar acima de tudo. Portanto acaba vacilando em pontos cruciais e deixa algumas outras atuações sólidas, como Bernthal e Aunjanue Ellis passarem quase despercebidas.

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