Kevin

A amizade e a Babel

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

A Mostra Aurora segue a todo vapor em Tiradentes, “Kevin” de Joana Oliveira é o novo longa exibido para figurar na competição pelo prêmio. Então o leitor/torcedor que acredita no respiro da Mostra a partir de “Rosa Tirana”, pode se alegrar, em parte. O filme de Joana é mais delicado dos integrantes até o momento, sem fazer disso um monumento para subjetivismos expositivos. Por essa razão, o projeto não se iguala a conservadorismos recorrentes na produção brasileira exibida com frequências em festivais e faz uma construção que parte de um recorte de relação para expor questões políticas que permeiam uma amizade.

Existe aqui uma estética de um registro quase primário desse drama, que vai sendo costurado a partir de situações deslocadas e ampliadas com uma narrativa que somos capazes de ver em fragmentos, seja em fotografias ou em diálogos. Aqui há uma questão de importância basilar para a experiência do espectador, carregando consigo um ponto particular para cada um. A maior parte do filme não é falada em português. E aqui devo fazer uma digressão pessoal, pois imparcialidade é sonho capitalista do fim do século XIX. Não posso creditar vilania de “Kevin” e de filmes brasileiros que são produzidos em outros países, com trechos não vernáculos ou longas inteiros gravados sem a presença (ou quase nenhuma) da língua portuguesa, afinal uma obra como “Nũhũ yãg mũ yõg hãm: essa terra é nossa!” (também presente na Mostra Tiradentes) possui brevíssimos momentos em português. Contudo, trata-se de uma língua presente em território nacional, na cultura brasileira, em nossa identidade. O Inglês não, muito menos o alemão. Se assumirmos que ambas possuem influências culturais e históricas, teremos cedido por completo ao capitalismo imperialista com nome menos agressivo: globalização. Por essa razão, a Mostra Aurora trazer consigo uma obra que deve ser lida, é um desconforto para o mosaico do que será a produção nacional independente a partir da abertura do calendário dos festivais. Uma Mostra que tenta “democratizar” o acesso por tornar seu ingresso gratuito, formalizar a leitura de legendas, acredito ser um erro ético.

Dito isso, o acesso a obra é prejudicado e o espectador pode não encontrar grandes motivações para seguir o caminho de legendas. Mas “Kevin” possui méritos notáveis, a maneira como encontra os espaços para assimilar a narrativa e fazer com que a linguagem se torne o grande motor dramático a partir dessa compreensão do registro em si, dialogando diretamente com uma mise-en-scène que se projeta diante da própria trama, é consciente e madura, não comete deslizes, segue rigorosamente seus dispositivos e processos. Faz isso por acreditar que essa história de amizade é mais que um reencontro de memória e políticas que permanecem latentes em países capitalistas desenvolvidos. Mas a base material com que o filme trabalha, aparece como recurso alienante, pois se desvencilha de qualquer frente de compreensão das problemáticas apontas pela protagonista (em seu período na Alemanha) de maneira totalizante. É a memória como tecido plausível para que esse carinho e afetividade das amigas surja como modulação de mudanças internas.

Está claro que a atitude é manter os assuntos em perspectivas distintas, separar os campos através dessa estética do registro, do corte descontínuo, do enquadramento rigoroso, para realçar essa perspectiva dos “momentos”. A unidade é a forma dos sentimentos impressos na tela, é a objetiva capturando o subjetivo. E aqui entra outra particularidade do longa e suas aproximações diversas com aquilo que nos é estrangeiro, a língua parece familiarizar essa linguagem, pois o faz de maneira cirúrgica. Trata-se de um protótipo dramático ensaísta. Ou seja, está inundando dos referencias da cinematografia mundial que conquista os louros nos festivais.

“Kevin” é uma obra honesta com seu drama, mas que se distancia do público brasileiro e encontra dificuldade de acessibilidade que não seja pela sua forma que funciona a partir de uma articulação muito consciente de si. Mas vale lembrar que forma e cultura como unidade é um imbróglio antigo, que vêm se alastrando.

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