Jojo Rabbit

Um padronizado nacionalismo simbólico

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

Após vencer Melhor Filme pelo Público no Festival de Toronto 2019, “Jojo Rabbit” tornou-se rapidamente um dos filmes mais aguardados do ano, não à toa, os ingressos se esgotaram em apenas dois dias. Em um Odeon lotado, o espectador carioca teve por uma noite a sátira dirigida por Taika Waititi projetada no espaço de cinema mais tradicional da cidade, em pleno Festival do Rio. 

Travestido de sátira política, o novo longa do diretor neozelandês é um produto norte-americano no auge de sua cultura de ironia canhestra, não à toa, quando acredita estar fazendo humor com algum tom progressista politicamente, sempre deixa escapar o nacionalismo. 

No início da projeção o jogo formal do diretor fica claro, trabalhar com um tom parodia e um rigor na linguagem, com enquadramentos rígidos para que os diálogos e os sons possam compor uma comédia de tempos mortos. O tom lúdico que é construído através da imagem de um Hitler interpretado por um neozelandês, que conversa constantemente com uma criança, engajando-a a tornar-se uma nazista fanática, funciona até onde o drama do protagonista inicia uma falha constante de não compreender como relacionar toda a estrutura com a força que busca através de seu humor. 

Não que a comicidade por vezes não funcione, mas é excesso de potencial desperdiçado, pois cada me uma mesmice tão padronizada, que o espectador se vê assistindo apenas mais um filme de comédia norte-americano e não uma sátira que consiga fazer piada com uma temática pesada, para que consiga debater diversos assuntos políticos com o jogo de imagens e palavras. A figura de um Hitler imaginário, que auxilia uma criança para promover um extermínio de uma população, cria força apenas na teoria, pois na prática, o exercício é mais formulaico que poderia, até a fisicalidade do humor e da violência são previsíveis. O arco dramático do protagonista, possui diversas muletas de gatilho fácil, tanto no eixo que diz respeito a seu fanatismo, como a quebra do mesmo com a personagem Elsa, interpretada por Thomasin McKenzie

Um dos poucos momentos realmente genuínos de “Jojo Rabbit” é quando a mãe de Jojo (Roman Griffin Davis), Rosie (Scarlett Johansson), ensaia um pequeno teatro durante um jantar. A cena é relativamente simples do ponto de vista formal, porém Scarlett consegue performar um drama tão sólido quanto o texto propunha, entregando a única coisa honesta durante o filme inteiro. E este é um dos maiores obstáculos que o espectador encontra durante a projeção do longa, tudo é tão forçado e artificial que não funciona como uma unidade estilística que dialoga com as intenções do projeto. Por mais que Taika consiga um estilização prazerosa, por conseguir conciliar um tom lúdico com um rigor estético, falha miseravelmente em adicionar a isso um argumento que sustente sua necessidade humorística diante de um processo político como a Segunda Guerra Mundial. 

E enquanto a fotografia busca manter os contrastes suavizados, para que haja essa tendência uniforme na imagem, o texto vai patinando entre as tentativas de desconstrução de uma rigidez do exército alemão, mas faz tudo com uma intenção política direta, desmoralizar os nazistas e seus preconceitos, para que no fim, os norte-americanos possam atravessar a cidade de Berlim com uma bandeira impecável enquanto comemoram a guerra vencida e o “ex-nazista” de 10 anos e a judia foragida vejam o fim da guerra na ótica da vitória estadunidense. Claro, Hollywood jamais poderia transformar uma sátira que assume o lado dos nazistas, sem levantar a bandeira que a queda dos mesmos veio por conta dos esforços do país de origem da produção. 

“Jojo Rabbit” não é exatamente um produto tão tóxico quanto seus irmãos Hollywoodianos, mas ainda é fruto de um nacionalismo que permeia cada linha de diálogo, corte e movimento de câmera. O apelo para uma questão como a do sapato (quem viu entenderá), é uma questão simbólica para a trama, mas carrega uma carga histórica tanto para o holocausto, quanto Hollywood. Assim, é claro perceber que dotado de algumas intenções positivas, a obra está repleta de EUA por cada frame, transformando uma sátira ao nazismo em comédia norte-americana que beira a mediocridade. E em todo esse processo, por mais que arranque um risinho ou outro, como em cenas de repetição fulminante (Heil, Hitler), o longa não foge da padronização e cai em um limbo de fragilidades.

 

 

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