Jéssika

Uma mensagem ininteligível

Por Pedro Guedes

Durante a Mostra Sesc de Cinema 2019

“Jéssika” é um filme difícil de entender. E não por que a história é complexa ou por que os temas são abordados de forma complicada, mas porque as falas das personagens são captadas de maneira tão abafada e sonoramente poluída que fica praticamente impossível entender o que elas estão dizendo. Isto é realmente uma pena, já que a mensagem que o curta pretende transmitir é das mais importantes, sendo triste, portanto, que, por causa de uma falha técnica aparentemente boba, a transmissão da mensagem inteira tenha sido comprometida.

Começando com um plano longo que mostra Jéssika caminhando pela rua até chegar em casa, o filme nos faz sentir o temor da personagem-título ao andar em locais públicos, temendo ser vítima de algum tipo de discriminação iminente – e, à medida que a projeção avança, descobrimos que Jéssika é uma mulher trans. O momento da descoberta, inclusive, é o melhor de toda a obra, já que a montagem resume parte da jornada da protagonista em busca de sua identidade através de flashes rápidos, mas que cumprem o propósito de mostrar as imagens necessárias para que nós, como espectadores, possamos captar seu sentido.

Infelizmente, “Jéssika” (o filme, não a personagem) se mostra confuso e perdido em relação aos seus objetivos, soando como uma obra que simplesmente não chega a lugar algum – e isto é sempre um mau sinal. Assim, quando a projeção termina e a frase “O Brasil é o país que mais mata travestis e transsexuais no mundo”, o espectador é imediatamente levado a uma sensação conflitante: por um lado, esta informação é correta e representa um problema que precisa urgentemente ser combatido, tornando a existência de um filme como este importantíssima; por outro, a direção de Galba Gogóia não parece ter objetivos certos, o que fragiliza o resultado e a mensagem como um todo. Talvez se a captação de som tivesse sido um pouquinho melhor, nós pudéssemos entender melhor estes objetivos.

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