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Jardim do Crime

A loucura soprada pela atualidade

Por Julhia Quadros

Youtube

“Jardim do Crime”, dirigido por Daniel de Jesus, com a atuação de Renato Carrera estreou no dia 17 de setembro de 2020 no Youtube, sendo a obra uma excelente alegoria do contexto político e econômico atual, revelando o desabafo de dois artistas em meio à crise econômica e o isolamento social próprios do período da pandemia do novo Coronavírus. O roteiro, adaptado do conto de João do Rio, “Crimes de Amor”, do livroA Alma Encantadora das Ruas, uma visão interessante de um autor, conhecido por sua caracterização das ruas e de um mundo externo, sobre um momento de angústia e de confinamento. O média-metragem é um excelente pensamento sobre a atualidade, o sentimento de desamparo da classe artística, que se vê sem a renda básica para se sustentar, com o fechamento dos teatros e das salas de exibição dos filmes e todo o contexto do Brasil em que o governo atual não fornece o básico para a sobrevivência humana; desta forma, o cárcere físico e emocional representado no filme faz com que o espectador venha a refletir sobre esta situação e a se ver representado nas personagens interpretadas por Renato Carrera em seu decorrer.

“Jardim do Crime” surge de um edital ganho, após o ator ter proposto realizar leituras de João do Rio e adaptar o conto em tempos de pandemia. Daniel, que tem experiência com direção e atuação no teatro, cenografia e publicidade dirige a adaptação com uma câmera de celular, com um viés bastante experimental, além de trabalhar integralmente na pós-produção, tendo, assim os dois artistas, o domínio completo da realização da obra. Algo bastante interessante sobre a estética desta é que o fato de ser realizada com um celular corrobora com o tom confessional dos textos, sendo um caso em que a utilização de uma linguagem não clássica no cinema dialoga melhor com o conteúdo do filme, compondo uma totalidade mais interessante.

O diretor ressalta que a produção tem uma função de cura, devido aos problemas enfrentados por conta do abandono do governo em relação aos artistas e à extrema dificuldade de levar a cabo uma criação, frente a estas circunstâncias. “Jardim do Crime” é um desabafo feito como uma forma de lidar com estas questões difíceis, abordando crimes cometidos e confissões de pessoas aprisionadas e, ao assistirmos ao filme é impossível que não nos identifiquemos com a sensação de aprisionamento e revisão de uma história de vida, de momentos bons e ruins, ainda que não sejam tão graves quanto os retratados na tela. Ao trazer a temática do assassinato, também, somos convidados a pensar “o que seria um crime?” ou se existiria um padrão de criminosos ou qualquer pessoa poderia se enquadrar, dependendo das circunstâncias. Sobre isto, o ator Renato Carrera diz que foi um processo bem difícil entrar em contato com esta emoção, principalmente para criar diferentes especificidades para cada uma das personagens que interpreta. Ele cita a atriz Judi Dench, que define as diferentes intenções na interpretação, em que no teatro, a emoção é desenhada, no cinema, é pensada e, na televisão, o mais importante é a ação. E, certamente, o média metragem é um excelente pensamento sobre as emoções humanas e as condições propícias para que elas surjam.

Para o ator e o diretor, a arte é composta por instantes, que, de acordo com eles, são bem evidentes no teatro e no cinema; no primeiro, ele se faz do momento, da atuação em um dia específico e da interação com a plateia no dia em questão, no segundo, o instante é a interação com a câmera, como se esta fosse uma plateia. Além disto, Daniel de Jesus aponta como outra criação de instantes específica do Cinema o próprio momento da filmagem, em que algum take específico tem algo de próprio e original que outros não tenham. Isto é o momento captado na tela e a grande capacidade do Cinema de apreensão de uma característica, às vezes mínima, ampliada pelo registro cinematográfico. A sequência do corte de cabelo, por exemplo, é um dos exemplos destes instantes no filme “Jardim do Crime”, uma vez que ela representa, também a fragmentação, o duplo e o momento em si, duas personalidades na mesma, sua divisão e o instante. A montagem consegue transmitir bem os momentos, mantendo um ritmo emocional e sensorial bem intenso ao longo do filme.

O diretor e o ator reforçaram a frase “a loucura que a paixão sopra no mundo”, que evidencia a beleza perigosa de sair de um estado de segurança. A frase pode ser interpretada de diversas maneiras, tanto como uma característica da atualidade em que, ao se perder parte da vida pública, as pessoas se encontram mais sinceras e em contato com as suas paixões, também, a união entre as pessoas e a empatia que isto provoca em momentos difíceis. Também, o próprio estado de paixão, mesmo, e este elevado à maior potência da loucura, como no conto de João do Rio. Este estado de entorpecimento e elevação de sensações, o qual estamos presenciando dialoga perfeitamente com o que está representado na tela, com as imagens em preto e branco feitas com o experimentalismo da câmera, evidenciando um momento com ideias mais turbulentas e sentimentos exagerados. Com as diversas personagens vividas por Renato Carrera, sendo, porém, uma só, tal como João do Rio cria seus duplos a medida que compõe e escreve sobre os cantos mais obscuros, mas ricos, da mente humana.

 

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