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Jair Rodrigues – Deixe que Digam

Deixe que reverenciemos

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É tudo verdade

É possível pensar em como “Jair Rodrigues – Deixe que Digam” de Rubens Rewald é uma declaração de afeto pela trajetória do cantor. Não apenas porque se debruça em fazer do didatismo recorrente da carreira do cineasta, uma biografia que consiga esmiuçar determinados acontecimentos, mas por reconhecer em si uma necessidade maior que o ímpeto cinematográfico da exposição. Que melhor maneira de traçar o objeto que o permitindo falar?  

A lógica é clara, os materiais de arquivo servem para apoiar determinadas falas de pessoas que conviveram e/ou trabalharam com Jair. Quando o próprio entra em cena, a entidade está colocada na tela, não há mais o que ser dito, interdito ou atravessado. Com exceção de seu filho, que performa falas do pai. Essas cenas funcionam melhor na prática que na teoria. Em tese, a ideia transformaria a experiência em algo vergonhoso, por estarmos assistindo a interpretação de falas passadas, como quem tenta transcriar e tornar híbrida a linguagem entre ficção e documentário. Mas Jair Oliveira, o filho, consegue emular de maneira tão orgânica parte das narrativas, que a proposta de atravessar com as parábolas dos outros entrevistados, se torna uma alternativa certeira para irromper com alguma monotonia no ritmo do filme. 

E com isso a organicidade vai surgindo junto às palavras de seus personagens, através das entrevistas feitas pelo próprio Rubens, ou passagens icônicas pela televisão. A versatilidade com que a história vai saltando de seus meios, é bastante notória. Ao mesmo tempo, o ritmo frenético dessa montagem que se permite saltar das performances, falas e arquivo, cansa o espectador com certa rapidez. Pois a quantidade parece excessiva, a montagem não consegue dar conta de manter sua estrutura didática e aditiva sem perder no campo do ritmo. Aqui cabe dizer que os afetos envolvidos, tentam diminuir questões outras da história, criar síntese do didatismo para um olhar que não sobrepõe o cantor, pelo contrário, ele não é apenas protagonista e conta sua própria história, como cria a cadência da moral também. É uma reverência que surge como gesto de respeito, mas que rapidamente começa a tornar-se problema, já que o reverb uníssono possui sempre o mesmo arquétipo e tom. 

“Jair Rodrigues – Deixa que Digam” acaba caindo nas armadilhas de produções documentais biográficas, pois não consegue fugir do beco sem saída de tornar a experiência narrativa espaço-temporal perfeita para a distribuição televisiva e o acréscimo de uma nostalgia frágil em torno de si. Algo perfeitamente comum. É uma busca de reconhecer em alguém como “menos falado do que deveria” um apelo grandioso que atravessou gêneros e âmbitos culturais. E aqui há deslizes na compreensão de uma sociedade que deve ser exaustivamente levada à crítica, pois se há a factualidade da argumentação, há espaço para o debate em torno do Brasil que estamos falando e vivendo. Assim, o longa toma sempre o caminho mais pragmático para conceber essa estrutura mais direta ao artista, se concessão, análise, crítica ou debate sobre nada ao seu redor. É um ode absoluto.

E isto possuem certas vantagens, a própria descrição musical que o documentário faz, escutando de diversos artistas diferentes, e do próprio Jair, razões para o sucesso astronômico e como funciona essa articulação formal, além da versatilidade do cantor, que transitou e inspirou gerações distintas de gêneros diferentes, samba, hip-hop, mpb etc. E aqui há uma abertura para um verdadeiro tratado de como Jair não era uma figura política mas possui a envergadura para impulsionar outros negros ao mundo artístico. Certamente esse não é o foco do documentário, que insiste em retornar de maneira inequívoca à figura do músico. 

“Jair Rodrigues – Deixa que Digam” não é apenas ode ou homenagem, é uma nota musical cíclica que não deixa escapar nunca seu objeto centralizador. A característica é dúbia, podendo agradar ou afastar parte de seu público, mas é sempre bom tornar a voz de Jair para lembrar-nos que o “jeitinho brasileiro” se tornou pejorativo na boca da burguesia, porque no fim, é a expressão máxima de como lidamos com a realidade ao nosso redor. 

“Deixa que digam 

Que pensem 

Que falem 

Deixa isso pra lá 

Vem pra cá 

O que que tem? 

Eu não estou fazendo nada 

Você também 

Faz mal bater um papo

Assim gostoso com alguém?” 

O ritmo e a “vagabundagem” encantaram essa classe burguesa. Eles desconhecem o Brasil.

Trailer

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