Irmãos à Italiana

Nem todos os caminhos levam a Roma

Por Fabricio Duque

Por mais que se tente, não é tão fácil assim traduzir este novo realismo do cinema italiano, que busca acontecer na fantasia existencialista de Federico Fellini, mas traz a padronização mais clichê dos gatilhos comuns do cinema hollywoodiano. “Irmãos à Italiana”, exibido na seleção oficial do Festival de Veneza 2020, é um desses filmes. Especialmente por evocar também o melodrama de arte, cuja interpretação superficial se junta à fotografia inocente, que por sua vez se embasa na ingenuidade anti-naturalista dos artifícios condutores da trama, como câmera lenta, digressões recentes e exagero nas encenações. Sua narrativa desenvolve-se fora do tom. Ainda no campo de um ensaio. O conceito psicológico, de misturar épocas, memórias, espaços e tempos viajantes, bagunça o próprio realismo fantasioso, construído com o propósito de descontinuar o espectador do agora e o inserir em uma perda de controle das ações iminentes. Sim, Fellini faz isso com o “pé nas costas”.

O terceiro longa-metragem do realizador italiano Claudio Noce, “Irmãos à Italiana” (tradução brasileira de “Padrenostro”, título este que tem significado dúbio – Pai Nosso, divino-liturgia, e o Pai Nosso, base-familiar) é inspirado em uma história real. Para uns, esse pai é um “herói” salvador da pátria. Para outros, um “vilão” político. E entre esses extremos, a mirim personagem principal Valerio (com sua imaginação fértil – o ator Mattia Garaci, sem empatia alguma como público) e um substituto âncora aparador Christian (pragmático e amadurecido – o ator Francesco Gheghi), “amigos de sangue para sempre” e um “remédio para a solidão”. Mas o protagonismo é mesmo a câmera. Expressiva e de presença direta, ora em suas tomadas aéreas, ora próximas em super close (por detalhes), ora teatrais (resultados de efeito), ora em lentos movimentos (para intensificar a carga dramática), ora subjetiva, ora em metalinguagem, ora distanciando o espectador, ora querendo sua participação observadora, ora em cortes rápidos (por elipses muito próximas de tempo), mas em todos clama aos céus por nossa cumplicidade em aceitar ingenuamente as escolhas feitas, dicas em tela que indica o que iremos encontrar, como a letra cursiva das cartelas para dizer que “quero ser caseiro e de cotidiano naturalista-orgânico”. Só que quando toda a construção é criada apenas na superfície, então não há hipóteses de aprofundamento. Torna-se um aparente capa protetora, que tenta disfarçar as fragilidades reinantes e pululantes do roteiro, como as inúmeras pontas soltas, o esconderijo secreto e/ou a câmera “arma”, por exemplo.

“Irmãos à Italiana” aborda o tema intrínseco a Claudio Noce: a política revolucionária (“Células terroristas pra salvar contra o estado imperialista” – ainda que o filme tende mais ao lado do Estado). A história é baseada na infância do próprio diretor, cujo pai era vice-diretor da polícia de Roma, e foi alvo de um atentado nesta época, conhecida na Itália como “os anos de chumbo”. Pois é, é inevitável em todo e qualquer projeto pessoal, por mais que se queira dissociar a arte da emoção, que o processo-litania se apegue às memórias que não causam tanto estrago sentimental, fazendo até que a solução mais radical atinja o nível da breguice “primeiro filme de faculdade” (como se cenas fossem feitas no calor dos impulsos), como por exemplo, a cena cafona-kitsch (sim, assim mesmo em redundância) do morto e do sangue no chão, e/ou dos bullying na escola. Talvez o diretor precisasse respirar e não levar tão à sério essa dramaticidade. Mas será que o filme é assim por se apresentar pela perspectiva de uma criança? Mas será que crianças são assim? Retóricas à parte, entre as omissões a la “A Vida é Bela” e as tentativas de adentar no mundo dos adultos, Valerio “foge” do “abandono” do pai (Pierfrancesco Favino), das “histerias” da mãe (Barbara Ronchi) e da mudança do ecossistema da família. Pois é, esse tema já foi brilhantemente abordado no filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, por exemplo.

A segunda parte do filme é a ida às praias da Riviera interiorana italiana, quase com um que atmosférico de “Me Chame Pelo Seu Nome”. “Irmãos à Italiana” é sim uma típica novela italiana, com imersões fellinianas, como o universo perdido-paralelo de encontrar pessoas no meio do nada da mata, soando como uma viagem que ultrapassou as barreiras reais para chegar ao mundo invisível. Mas não. Nem todos os caminhos levam a Roma. E nem todos conseguem traduzir terapias existenciais. Nem no metrô. Nem com encaradas à câmera. O diretor dedico o filme ao pai, à mãe e a sua família. E nós, do outro lado da tela, rezando Pais Nossos para que a trama se resolva logo.

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