Invasão ao Serviço Secreto

Mais um ataque a uma má administração?

Por Pedro Guedes

Em 2013, o agente do Serviço Secreto norte-americano Mike Banning tinha que salvar o presidente fictício Benjamin Asher e seu vice Allan Trumbull de um ataque terrorista dentro do próprio território em “Invasão à Casa Branca”. Em 2016, Banning tinha que proteger Asher e Trumbull de mais um ataque terrorista, desta vez durante uma visita a Londres, na continuação “Invasão a Londres”. Agora, em 2019, o presidente da vez é o ex-vice Trumbull e Banning tem que defendê-lo de novas forças que planejam assassiná-lo via drones em “Invasão ao Serviço Secreto”. A cada novo capítulo da série “Invasão…”, os Estados Unidos voltam a apanhar repetidamente de seus inimigos, o que nos leva à pergunta inevitável: já não está na hora de mudar esta administração, não? Ou, pelo menos, repensar seu sistema de segurança interna?

Dirigido por Ric Roman Waugh (responsável por “O Acordo”, com Dwayne Johnson), “Invasão ao Serviço Secreto” tem início mostrando o treinamento que Mike Banning costuma fazer em sua rotina de trabalho – ao mesmo tempo, alguns problemas de saúde começam a recair sobre os ombros do agente, o que poderia causar seu afastamento do Serviço Secreto, mas que, justamente por isso, é mantido em sigilo por ele (afinal, o sujeito quer trabalhar).

Depois que uma série de drones aparecem para atacar o atual presidente Allan Trumbull, porém, Banning é inexplicavelmente acusado de ter organizado o atentado, sendo preso pelo FBI enquanto o vice Martin Kirby assume a cadeira deixada vaga por Trumbull. A fim de provar sua inocência e, de quebra, capturar o real responsável pela tentativa de assassinato do presidente, Banning foge das mãos do FBI e entra em uma jornada que envolverá muitos tiros, socos, chutes, pontapés, mortes, esguichos de sangue e explosões – mas não sem antes fazer uma visita importante ao seu pai, Clay.

Trata-se, portanto, de um fiapo de história que existe apenas como pretexto para as cenas de ação – o que, por si só, está longe de representar um problema, como atestam obras como “Comando para Matar”, “Caçadores de Emoção” ou “Velozes e Furiosos 7” (percebam que peguei exemplos de décadas diferentes justamente para embasar o quanto o conceito de escapismo atravessa diversas épocas). Mas ao contrário destes filmes, que divertiam em função da tolice de suas premissas e de suas execuções assumidamente despretensiosas, “Invasão ao Serviço Secreto” aspira a uma solenidade que só poderia ter sido fruto de um patriotismo ultrapassado, como se o diretor Ric Roman Waugh fosse incapaz de prestar uma reverência aos Estados Unidos sem incluir um pouquinho de ironia em seu discurso, não sendo surpresa, portanto, que praticamente tudo na narrativa seja registrado com uma urgência óbvia e artificial (um plano em câmera lenta aqui, uma musiquinha heroica ali, um discurso em nome dos “valores” norte-americanos acolá e por aí vai).

Uma urgência que, por sinal, não se encontra nas sequências de ação, já que o diretor se revela incapaz de fazer o espectador temer pelo destino dos personagens em momento algum (não adianta mostrar Morgan Freeman inconsciente em uma cama de hospital; nós sabemos que aquilo não será definitivo). Aliás, praticamente todas as tentativas de suspense/ambiguidade/reviravolta bombástica que o filme tenta criar acabam caindo por terra graças ao fato de todas elas serem terrivelmente previsíveis – ou vocês acreditaram mesmo que aquele personagem não se tornaria vilão mais à frente? Como se não bastasse, as cenas de ação propriamente ditas carecem de identidade visual, misturando-se na memória do espectador em meio a imagens de centenas de outras produções esteticamente parecidas; o que só não representa um constrangimento tão grande quanto a horrorosa implosão/queda digital de um prédio no terceiro ato e os diálogos entre Mike Banning e sua família, que parecem ter sido concebidos por um robô tentando simular uma conversa no velho espírito do “American Way of Life“.

Vivido por Gerard Butler como um herói que de vez em quando se mostra frágil, vulnerável e moralmente imperfeito (o que é interessante), Mike Banning é apresentado de maneira promissora, mas logo é reduzido a um brucutu genérico e confundível em meio a tantos outros similares. No fim das contas, “Invasão ao Serviço Secreto” não chega a ser ruim como “Busca Implacável 3” ou “Operação Babilônia”, mas está mais perto disso do que de obras excelentes como “Missão: Impossível – Efeito Fallout” e “John Wick 3: Parabellum”. É claro que Butler voltará à pele de Mike Banning mais cedo ou mais tarde, mas quando chegar a hora de assistir às inevitáveis continuações, o espectador já terá esquecido completamente tudo que aconteceu neste terceiro capítulo – como também esqueceu completamente tudo que aconteceu nos dois anteriores.

 

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