Întregalde

Acasos, contradições e vírgulas deslocadas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2021

Há no cinema romeno uma característica admirável: a de captar a essência  documental da espontaneidade pela forma da ficção. Não se sabe como isso acontece. Mas talvez o realizador Radu Muntean (de “Terça, Depois do Natal”) consiga pelo menos fornecer uma luz quando tentou explicar no Festival de Cannes deste ano a atmosfera de seu mais recente longa-metragem “Întregalde”, exibido na Quinzena dos Realizadores. “Eu tento colocar no filme uma sensação voyeur que se pode olhar para dentro”, disse. Sim, mas há muito mais que uma simples sensação observacional, porque a naturalidade aqui age e reage à espera de ações cotidianas, apresentando-se como um filme de situações que perdem controle, ganham acasos e ensinam que quando for para ser, será, independente do querer urgente e absoluto de seus viventes. A narrativa é construída de forma crua, orgânica, com câmera próxima e/ou acompanhada para assim aumentar a percepção do espectador de fazer parte da história. Gera-se uma tensão de perigo iminente, que na maioria das vezes não acontece nada, mas causa uma aflição-adrenalina.

“Întregalde” não manipula os artifícios técnicos, apenas deixa as situações acontecerem. Não há trilha-sonora paralela. Nós ficamos sabendo pelas conversas banais entre eles (um tanto quanto desconhecidos ainda), que versam sobre relacionamentos, picardias e arrogâncias de “macho alfa”. Os diálogos são fluidos, altamente espirituosos e muitos com referências cinematográficas, por exemplo, a “Forrest Gump”, de Robert Zemeckis, e/ou cantando o tema icônico de “Apocalypse Now”, Francis Ford Coppola. Assim, nós somos completamente abduzidos e aprisionados nos dramas, idiossincrasias e comportamentos condicionados de seus personagens. “Întregalde” é acima de tudo um estudo de caso sobre as contradições de seres humanos enquanto indivíduos sociais. Que realizam trabalho social-humanitário, regular de fim de ano. De distribuir cestas básicas a famílias mais pobres do interior, em prol do “Natal feliz”. Em seus SUV (todos equipados), por estradas de terra na montanha da vila romena de Întregalde, um dos onze vilarejos na comunidade Alba County localizada na Transilvânia. E 5h47 de viagem de carro de Budapeste.

Contudo, quando uma simples decisão muda tudo, da proteção dos carros à realidade nua, todo esse altruísmo romanceado transforma-se em medo, precaução e vulnerabilidade. É como se eles adentrassem num invertido mundo paralelo. Cada um precisa ressignificar o próprio olhar. Não mais observador do lado de fora das cobaias. Os protagonistas Maria, Dan e Ilinca experimentam “pitadas” primitivas. O longa-metragem, especialmente por seu roteiro escrito a seis mãos (Radu Muntean, Răzvan Radulescu e Alexandru Baciu) é um presente de Natal aos doadores-humanitários. De perceber, sem julgar, o tratamento mais duro, embrutecido e normalizado dos moradores (atores locais dignos de prêmios, ainda que não acostumados com a câmera),  destes lugarejos, com seus tempos únicos, falando sozinhos e cúmplices agressividades dominantes (dar o banho, por exemplo). Muito da força cênica de “Întregalde” está na mão forte de seu diretor em equilibrar dinamismo com tempo coloquial. Desde o início, a câmera quer a presença de se integrar biologicamente no ecossistema encenado, ora em plano sequência (a fim de ambientar toda a confusão prévia de distribuição dos alimentos), ora acompanhante, sempre participativa.

O cinema romeno também é mestre em desconstruir falsos moralismos. Aqui, como foi dito, uma simples decisão fora da rota causa uma emaranhada vírgula deslocada, que desemboca em novos caminhos e novas realidades, desafiando as ideias deles sobre ajuda e empatia. O que ser tão urgente no ato humanitário, padronizado de apenas entregar comida e tirar fotos? Ajudar alguém que precisa de uma carona desvirtua toda programação? Ah, os acasos. “Întregalde” faz, por cenas-instantes, uma necropsia na alma dos romenos. Da pressa da cidade grande versus a incompatibilidade confrontada pelo tempo parado do interior. Esses três personagens “tomam” um banho de consciência, o que causa violência verbalizada, catarses, loucuras para sair logo dali. Mas precisamos concordar que neste filme Radu Muntean (que também atua) aumentou a dosagem de sua receita e as reviravoltas cotidianas, perdendo às vezes junto com seus personagens, e assim precisou de uma ajuda extra do roteiro para “completar a missão” (saídas mais fáceis, novos personagens casuais e um toque especial do Universo). Mas ainda assim “Întregalde” é a representação crítica de uma enraizada problematização social, que se lida com hipocrisias e oportunismos a fim de “acalentar” a mente, envolto ao “progresso” de humanos instáveis, incapacitados e mimados em seus quereres individualistas, mascarados de verdades. E é dessa forma que tudo aqui acontece: uma “aventura turística” que começa barulhenta e termina com silêncio.

Trailer

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