Incompatível com a Vida

A finitude do que ainda não começou

Por Pedro Sales

Durante o Festival É Tudo Verdade 2023

Incompatível com a Vida

Dedicado a Manuelzinho e a todas mães e pais que não puderam viver o sorriso de seus filhos, “Incompatível com a Vida“, vencedor da mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade 2023, medita acerca da perda gestacional, um vínculo criado entre mãe e filho, mas interrompido antes do nascimento. A diretora Eliza Capai retrata o assunto com um olhar extremamente humano e empático, isso se dá sobretudo pelo caráter participativo e de proximidade da cineasta com a sensível temática. O documentário nasceu junto da gestação da cineasta. Decidida a registrar as etapas da gravidez, Capai filmava a si mesma, acompanhava o crescimento de seu bebê e capturava sua rotina grávida. Quando o feto foi diagnosticado com má formação “incompatível com a vida”, a produção tomou novos rumos. Em vez da experiência pessoal, dos temores e idealizações da gravidez, a documentarista procurou outras mulheres que passaram pelo mesmo processo. O conjunto de vozes, de relatos e experiências bastante próximas, é uma espécie de encontro com si mesma por meio de outras histórias.

O hibridismo documental que toma conta do longa explora diferentes tipos de linguagem. O tom participativo, de entrevistas com as outras mães, é tido como um modelo mais clássico de documentário, é visível, portanto, a ação da documentarista. Nesse mesmo sentido, Eliza Capai se insere dentro do documentário. Aqui, ela não é apenas a pessoa por trás das câmeras, que faz as perguntas e de quem ouvimos a voz, sem nunca vê-la. Ela é uma das mães que lidou com a perda, ela é uma das personagens. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a cineasta afirmou: “Era importante fazer aquilo como documentarista, e sinto hoje que me transformei ao me colocar na tela”. Ocorre, então, uma inversão do papéis. Ela se torna sujeito e objeto, é perscrutada pela câmera e é entrevistada, em dado momento, pelo até então companheiro. As cenas em que ela se filma no espelho, por exemplo, em especial no primeiro ato, me remeteram ao trabalho documental de Agnès Varda, que também se colocava na frente das lentes. Se por um lado há esse molde “clássico” no filme, pelo outro, a diretora explora um tom poético e etéreo.

A poesia visual de “Incompatível com a Vida” surge frequentemente e em diferentes contextos. O terror advindo de um pesadelo é amplificado quando o relato fica suspenso e o cenário onírico começa a se materializar na tela (o mar, o ultrassom). Nesses momentos, há também um uso pontual e efetivo da trilha sonora que faz com que o espectador divida o sentimento de angústia. Essa superstição e indício premonitório de algo de ruim poder acontecer com o filho surge de uma fragilidade e desejo de proteção. Quando a discussão se centra nesse ponto, a montagem habilmente “encaixa” diferentes relatos, os quais possuem em comum as noites intranquilas de preocupação. Demonstrando, dessa forma, que a proteção materna surge antes mesmo do nascimento. O poético de Capai, porém, não se restringe à reprodução dos pesadelos. A cineasta propõe planos dotados de simbolismos e metáforas, os quais permitem ampliam a subjetividade. A figura submersa transmite o sufocamento e impotência diante do diagnóstico. Os planos nas janelas, quase sempre filmados em contraluz, remetem ao isolamento diante do exterior.

Um dos pontos mais sensíveis do longa é a continuidade da gravidez mesmo sabendo que o filho ou filha não sobreviveria. As seis mulheres que dividem suas experiências, no geral, são bem diferentes entre si, em níveis socioeconômicos, religiosos e culturais. Da mesma forma, suas opiniões sobre a gestação também são contrastantes. Em primeiro lugar, a cineasta evidencia como a maternidade em si possui diferentes significados para cada uma delas. Para umas seria a segunda, terceira filha, para outras seria a realização de ser mãe pela primeira vez. As diferentes maternidades pressupõem também diferentes decisões. Os cuidados paliativos são uma forma de estender a gravidez ao máximo que é possível. A outra decisão, o aborto, antecipa o inevitável. Na cartela final, contata-se que “no Brasil, um mulher morre a cada dois dias por causa de aborto inseguro”. Os relatos das que optaram pela medida demonstram a falta de compromisso governamental com as mulheres que necessitam do aborto. Há muita burocracia para autorização legal, há clandestinidade no comércio de medicamentos, há dilemas religiosos-morais (quem dá e tira a vida?) e existe a criminalização.

Incompatível com a Vida” é um documentário que retrata as dores da perda e o contínuo processo de luto em razão da finitude do que ainda não começou. Os relatos juntos formam um grande discurso de aceitação da vida e, consequentemente, da morte. Outro ponto de destaque é a participação da diretora Eliza Capai. A questão do pertencimento, de ter passado pelo mesmo, permitiu à cineasta um maior envolvimento com as histórias e uma sensibilidade para construir confiança nas entrevistas. Além disso, ao se colocar na câmera, Capai se insere em uma situação de extrema vulnerabilidade física e emocional (os gritos e as contrações), para ela é parte do processo de cura, um filme-terapia. Os bebês arco-íris – os que surgem após uma gestação mal sucedida, arco-íris, pois vem depois de uma tempestade – são uma renovação e um sopro de esperança, entretanto os filhos que não chegaram a nascer sempre serão filhos. Não importa quanto tempo depois (oito anos, um mês), o filme demonstra que esses bebês sempre ocuparão um espaço na vida dos pais, a memória brilhará sempre no coração, como uma Estrela.
4 Nota do Crítico 5 1

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